Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Temer assume papel de fiador da gestão Dilma e preocupa cúpula do PT

Movimentação do vice, que tem conversado com empresários e líderes da oposição, estimula dirigentes petistas a suspeitarem que ele esteja se colocando como ‘alternativa de poder’

Alberto Bombig e Erich Decat , O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2015 | 03h00

BRASÍLIA - O vice-presidente Michel Temer decidiu assumir na prática o papel de fiador da gestão Dilma Rousseff no governo federal. Em conversas recentes com empresários e aliados políticos, o peemedebista demonstrou estar convicto de que qualquer caminho de saída da crise passa necessariamente por ele e pelo partido que comanda.

A decisão de Temer é uma inflexão na maneira como ele vinha encarando o desenrolar da crise. Até meados do mês passado, o vice acreditava que Dilma tinha plenas condições de enfrentar sozinha o desgaste e não aceitava nem sequer falar sobre a possibilidade de um processo de impeachment dela.

Em público, Temer continua refratário em relação à possibilidade de afastamento da presidente, mas, reservadamente, diz estar convencido de que o perigo é real e imediato e precisa ser combatido.

Nos últimos dias, Temer fez movimentos na tentativa de emergir do atual cenário como uma espécie de fiador da presidente. Mas, conforme um de seus aliados, a movimentação do vice também tem como horizonte uma tentativa de se “preservar” como alternativa de poder caso Dilma seja impedida de concluir o mandato.

Enquanto o PT e Dilma insistem em atacar a oposição como forma de sair de crise, o plano de Temer envolve uma concertação entre empresários, partidos da base aliada e também alas importantes do PSDB, principal adversário dos petistas. Com esse arranjo, o vice acha ser possível preservar o ajuste fiscal em curso no Legislativo e pacificar os ânimos de deputados e senadores. Para isso, Temer espera contar com a ajuda do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e também com a oposição.

O vice procura evitar o tema, mas a hipótese de ser uma alternativa de poder é vista como algo concreto entre representantes da legenda. Tanto que alguns peemedebistas intensificaram as conversas com lideranças da oposição na última semana, quando as pesquisas de opinião registraram impopularidade recorde da presidente. Aliado de Temer, o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, o ex-ministro Moreira Franco, almoçou na segunda-feira com o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), um dos mais próximos do presidente nacional dos tucanos, senador Aécio Neves (MG).

“Foi uma conversa de análise de cenários. O PMDB e PSDB são dois grande partidos e temos que conversar para construir alternativas. O que defendemos é que o caminho de uma mudança passe pela sociedade”, afirmou Pestana ao Estado. “Essa foi apenas mais uma das centenas de conversas que estão acontecendo.”

O próprio Temer esteve em São Paulo, em solenidade no Palácio dos Bandeirantes, com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Ambos mantêm um bom relacionamento e têm no secretário Alexandre de Moraes (Segurança), do PMDB, um canal aberto.

Ajuste. Com Renan, o vice tem conversado constantemente no intuito de acelerar a aprovação das medidas de ajuste fiscal paradas no Senado. Qualquer que seja o desfecho da crise política, ele acredita que o desgaste do ambiente econômico e um aumento no rombo das contas públicas só vão acirrar a tensão social no País.

Segundo políticos que privam do convívio com o vice e com o presidente do Senado, Renan tem se mostrado “sensível” aos apelos. Ainda nesse aspecto econômico, Temer acionou seus contatos no meio empresarial em busca de respaldo para se movimentar, com ou sem a autorização formal de Dilma. Recebeu sinal verde da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

As dificuldades do vice-presidente estão na Câmara, onde seu aliado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) declarou guerra ao governo Dilma e está sob ameaça de ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal como receptor de propina do esquema de corrupção da Petrobrás. 

Se Cunha não resistir no cargo, Temer tentará emplacar no posto o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), considerado um moderado e totalmente fiel ao vice-presidente. Se Cunha seguir na presidência da Casa, a solução será reagregar a base aliada para enfrentá-lo no trabalho de desarmar a chamada “pauta-bomba”.

Alerta. Apesar do discurso conciliador em relação ao PMDB, parte da direção nacional do PT está convencida de que o vice-presidente já embarcou no movimento pelo impeachment de Dilma. Para alguns cardeais petistas, a entrevista dada por Temer na quarta-feira, quando disse que o Brasil precisa de “alguém que tenha capacidade de reunificar” o País não foi fruto de um ato falho, mas de um cálculo político. Na opinião de parte da cúpula do PT, as explicações dadas pelo vice depois da repercussão da entrevista não colaram e as notícias sobre a aproximação do peemedebista com o senador José Serra (PSDB-SP) são um motivo a mais para desconfiança. Segundo eles, se as manifestações de rua contra Dilma marcadas para o dia 16 forem contundentes e o Tribunal de Contas da União (TCU) reprovar as contas da presidente, será “uma questão de semanas” até o vice apear do governo petista levando junto o PMDB.

Em imediata reação ao protagonismo de Temer, ministros do PT iniciaram um movimento interno no governo na tentativa de minar a ação do vice e devolvê-lo ao papel de negociador do chamado balcão do governo, composto pela liberação de emendas e nomeações de segundo escalão. A estratégia da reação também inclui intensificar a aproximação de Dilma com Renan sem passar pela mediação de Temer. (COLABOROU RICARDO GALHARDO)

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