Temer afirma ter 'ligação com o campo' e causa constrangimentos

Declaração foi feita no Lançamento do Plano Safra; uma análise no site da Câmara dos Deputados, no entanto, mostra que ele não fez discursos sobre agricultura neste ano e não tem projetos voltados para o setor

Leonêncio Nossa, de O Estado de S. Paulo,

07 de junho de 2010 | 21h39

BRASÍLIA- Mais forte nome do PMDB para ser o vice na chapa da candidata do Planalto à Presidência, Dilma Rousseff, o deputado e presidente da Câmara, Michel Temer (SP), causou nesta segunda-feira, 7, constrangimentos no lançamento do Plano Safra 2010/2011.

 

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Na festa preparada pelo governo para conquistar o apoio dos agricultores nas eleições de outubro, ele pregou sua pouco conhecida "ligação" com o campo e disse ter se "espantado" com o "conhecimento" demonstrado no discurso de seu apadrinhado político, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi.

 

A indicação de Rossi, um ex-deputado do PMDB ligado o setor, foi imposta por Temer em março, quando o então ministro Reinhold Stephanes deixou governo para disputar as eleições. Escolhido como estrela do evento que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Temer disse que sempre teve a "mentalidade" da agricultura.

 

Destacou que nasceu numa família de agricultores em São Paulo e seus valores sempre foram "ligados" à área. Uma análise no site da Câmara dos Deputados, no entanto, mostra que ele não fez discursos sobre agricultura neste ano e não tem projetos voltados para o setor.

 

A "brincadeira" do deputado expôs, na avaliação de alguns assessores de Lula, um dos assuntos mais delicados do governo: a fome do PMDB em impor apadrinhados em setores estratégicos, um problema que aumentaria num possível governo com Michel Temer como vice-presidente.

 

Atualmente, o partido conta com cinco ministérios e uma rede de apadrinhados em estatais e autarquias. Algumas indicações causaram polêmica. Foi o caso da escolha de Rossi para a Agricultura. Embora tenha ligações com a área há mais de 30 anos, a nomeação do ex-parlamentar causou apreensão no setor. Antes de ser ministro, Rossi marcou sua gestão no comando da Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab) pelo loteamento de cargos entre aliados políticos.

 

O próprio Lula pretendia transformar o último lançamento do Plano Safra de seu governo num acerto de contas com o agronegócio. O plano prevê R$ 100 bilhões de financiamentos para a agricultura empresarial até o final de junho de 2011.

 

No discurso de quase trinta minutos logo depois da "brincadeira" de Temer, o presidente disse que os "confrontos" entre o setor e representantes do governo ficaram para trás. "É importante perceber os avanços que aconteceram nestes últimos sete anos", afirmou.

 

Ele disse que hoje Rossi tem mais facilidade de conversar com a equipe econômica que Roberto Rodrigues, o primeiro ministro da área na gestão petista. "Todos nós aprendemos, ficamos mais maduros e passamos a nos respeitar", completou. "Já não há mais acusações baratas como antigamente."

 

 

No primeiro mandato, Lula fazia críticas pesadas aos agricultores. Ele reclamava nas reuniões com sua equipe da "apetite" do setor em obter créditos e das pressões para o perdão de dívidas. Nesta segunda, o presidente ressaltou que o montante de financiamento previsto pelo plano neste ano é quase cinco vezes maior que em 2003, quando o governo disponibilizou R$ 24 bilhões.

 

Lula repetiu um dos seus discursos mais tradicionais. Ele disse que os antecessores tinham vergonha de receber usineiros. "Só não tinham vergonha de pedir dinheiro ao setor em época de eleição", afirmou. "Da mesma forma que tem políticos que tem vergonha de evangélico", ressaltou. "Antes das eleições, todos os evangélicos são bons, depois, não são recebidos pelos governantes."

 

O presidente chegou a dizer que resgatou a cidadania dos usineiros. Ele afirmou que não tem duas caras. "Comigo não tem essa história", afirmou. "Ou você tem uma cara única e mostra do jeito que ela é ou o país não dá certo."

 

Ao final, ele arrancou aplausos da plateia, formada por assessores do governo e representantes da agricultura, ao citar a questão dos estrangeiros que estão comprando terras produtivas. Sem anunciar medidas sobre o assunto, Lula se limitou a dizer que há "abusos" na área.

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