''''Tem presidente popular e não vou ficar com ele?''''

Deputado diz que segredo para um partido crescer é apoiar o governo e que gestões FHC e Lula têm 'o mesmo modus operandi'

Entrevista com

Denise Madueño e João Domingos, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Em meio à negociação na Câmara para aprovar a prorrogação da CPMF, o líder do PR na Casa, Luciano Castro (RR), foi um dos parlamentares mais assíduos na tribuna e que mais deram entrevistas. Foi ainda presença constante no Planalto, para fazer a ponte entre as votações e a entrega de cargos nas estatais. Fez tudo isso escudado em experiência anterior: ele foi aliado do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando ajudou a aprovar a CPMF. A mesma que agora, aliado de Lula, busca prorrogar.Ex-tucano e ex-pefelista, ele garante que não vê diferença nas práticas políticas dos dois governos. "O modus operandi é o mesmo." O líder acha normal o inchaço da base governista e lembra que PSDB e PFL também incharam no governo FHC, que apoiavam. Um dos que mais cresceram agora foi justamente seu PR, que elegeu 23 deputados e está com 42. Parte do segredo, diz, está em apoiar "de corpo e alma" o governo. "Não tem missa só para a alma ou só para o corpo."Com tantos partidos na coalizão, porque o PR cresceu mais?Temos uma vantagem sobre os outros. Somos um partido novo, que já nasceu com estrutura grande. Isso permite que o parlamentar trabalhe a organização da base, ou seja, nomear diretórios municipais e ter o diretório estadual. Ele estrutura o partido no Estado todo e passa a ser referência de composição, inclusive nas eleições de 2008 e de 2010. Esse poder só nós podemos dar porque temos um partido novo.Quando o parlamentar entra para o PR é exigido que ele entre também para a base do governo?Quando opta por nós, ele sabe que tem de vir para a base do governo. A missa aqui é de corpo e alma. Não tem missa só para a alma ou só para o corpo.O governo tem dado contrapartida ao PR também de corpo e alma?O presidente Lula se elegeu em uma coalizão e manteve a coalizão para governar. É natural que os aliados participem da administração dentro de critérios estabelecidos pelo governo. Nossa participação se dá com o ministro Alfredo Nascimento, dos Transportes.O PR apoiou a CPMF por causa dos cargos no governo?Nós sabemos da importância da CPMF para o governo. Essa não é uma visão meramente política de toma-lá-dá-cá. Imagine o que significaria de sinalização para os agentes econômicos internacionais perder R$ 40 bilhões de arrecadação! O impacto de uma decisão dessas pode ser devastador.E as reivindicações do partido?Demandas de parlamentares existem e sempre vão existir. O presidente Lula vai passar mais três anos e meio e sempre vai existir demanda, porque o parlamentar está aqui para isso. Para trazer suas reivindicações e levar soluções para suas bases, prefeitos e governadores. O PR não queria que a administração dos portos saísse dos Transportes. Como ficou essa questão?Fui e sou contra tirar os portos dos Transportes. Não havia necessidade de pasta específica. Reconheço que é questão de muita interferência política. Mas não ficou diferente com Pedro Britto (secretário especial dos Portos, do PSB). O ministro disse que ia fazer uma gestão profissional. E aí, na Bahia, uma deputada estadual do PSB praticamente indicou todos os cargos de direção das Docas. Então a interferência política continua. O sr. disse que o PR espera nomeações no Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes, em Furnas e na Agência Nacional de Petróleo e uma função para o ex-governador do Ceará Lúcio Alcântara. Como está isso?O presidente me disse que, no caso do governador Lúcio Alcântara, quer dar uma solução no sistema elétrico. Disse que aguardava a definição do Ministério de Minas e Energia (se Silas Rondeau volta ou não ao posto). Estamos aguardando.No governo Fernando Henrique o senhor era do PSDB. Como compara os dois governos?Posso contar a história dos dois lados porque vivi completamente o governo FHC e vivo completamente o de Lula. Fui da base de FHC e sou da base do presidente Lula. O modus operandi é o mesmo. O PFL, naquela ocasião, levou vinte e tantos deputados, o PSDB da mesma forma, porque o objetivo era consolidar a base do governo. Hoje tentam incriminar o governo Lula dizendo que ele está aumentando sua base. Às vezes a consolidação da base se faz por alianças partidárias, como é feito aqui, e os partidos lutam para consolidar suas bancadas. O governo FHC agia dessa forma. Agiu para criar a CPMF, agiu para prorrogar a CPMF. A CPMF é uma criação de Fernando Henrique e não do presidente Lula.Na relação do Planalto com o Congresso, que nota o sr. daria para Fernando Henrique e para Lula?Não é diferente o sistema de atuação. É o mesmo. Só se governa com maioria, e não com minoria. Senão cai? Nem digo que caia, mas terá dificuldade para governar. Tem um presidente popular, que tem um índice de aprovação excepcional, e eu não vou ficar com ele? Se o povo está do lado dele, eu vou ser contra?

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