Jake Spring/Reuters
Jake Spring/Reuters

Técnicos devem se alinhar à ideologia do novo governo, diz ministro do Turismo

Em entrevista ao 'Estado', único parlamentar do PSL no primeiro escalão do governo diz que a bancada do partido vai entrar em afinidade

Entrevista com

Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2019 | 11h06

Único parlamentar do PSL no primeiro escalão, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, deputado federal licenciado por Minas Gerais, diz que os técnicos de ministérios devem se alinhar à ideologia do governo Jair Bolsonaro, que prega um Estado liberalizante. “É natural que a gente evite ter no grupo pessoas com ideologias contrárias que muitas vezes podem estar aqui sabotando o trabalho do dia a dia”, afirmou em entrevista ao Estado.

Depois de protagonizar um bate-boca público com o deputado eleito Alexandre Frota (PSL-SP), que cobrou a demissão de assessores do ministro apontados como “esquerdistas”, Antônio diz que a bancada do PSL vai entrar em afinidade e que se entendeu com o ator: “Estamos bem um com o outro”. O novo ministro sugeriu que os brasileiros não viajem para o exterior sem antes conhecer o País e mostrou ter restrições à liberação dos jogos de azar, uma pauta do setor.

O senhor é um dos quatro ministros com mandato político e não técnico. Como foi sua escolha?

Faço parte da Frente Parlamentar em Defesa do Turismo desde 2015. Minha luta foi em primeiro lugar pela manutenção do ministério, que teve a possibilidade de ser extinto. Tendo êxito nessa empreitada, o presidente sabendo que sou participante ativo da frente me fez o convite para tocar a pasta.

O senhor teve suporte da bancada do PSL?

Não. A frente parlamentar, através do deputado Herculano Passos (PSD-SP), referendou meu nome. O trade do Turismo também fez um gesto de aceitação.

O senhor teve discussões públicas com o deputado Alexandre Frota (PSL-SP) sobre integrantes de sua equipe. Como o senhor vai lidar com isso? Até que ponto a bancada do PSL vai ter influenciar?

Eu e o Frota estamos bem um com o outro, já estamos conversando e está restaurada a bandeira da paz entre nós dois. A bancada do PSL tem suas particularidades, são 52 cabeças se encontrado. É natural que exista um tempo para que a afinidade aconteça. Essa questão do Frota, pontualmente, eu entendi o lado dele, querendo defender o que nosso partido pregou durante toda a campanha: retirar a esquerda o máximo possível dessa gestão. Eu pedi ao ministro Vinicius Lummertz a indicação de um técnico para me auxiliar na transição, mas não sabia que ele tinha disputado a eleição pelo PSOL em Minas Gerais. Como eu vou adivinhar? Foi um dos casos que o Frota pegou. O outro foi de um servidor que trabalhou no Ministério da Saúde na gestão do ministro Saraiva Felipe (MDB-MG) (governo Luiz Inácio Lula da Silva). Parece que houve uma acusação de lobby de medicamentos contra o ministro na época. Poxa, quer dizer então que todo o corpo técnico abaixo fazia lobby? O servidor nunca petista foi na vida.

O senhor acha que há exagero na caça a quem tem ou teve vínculo partidário, mas pode ser um servidor qualificado? O ministro Onyx falou em “despetizar”.

Eu entendo o lado de querer oxigenar essa gestão. O aparelhamento do Estado pelo PT foi muito forte. É um processo de ter pessoas no corpo técnico do ministério que estão alinhadas às novas ideias, à nova ideologia, de um Estado desburocratizado, desregulamentado, de uma economia liberal. É natural que a gente evite ter no grupo pessoas com ideologias contrárias que muitas vezes podem estar aqui sabotando o trabalho do dia a dia. É natural que tenha essa visão ideológica. Nós não podemos estar todo mundo apontado para um caminho e com pessoas no corpo técnico que puxam para o outro lado. Acho que vamos conseguir fazer um time técnico alinhado com as ideias do novo governo.

Seus antecessores costumavam privilegiar os Estados de origem. O seu ministério será mesmo o “Minastério”, como apelidaram os políticos mineiros?

Vou ter uma postura nacional, respeitando e enxergando as vocações de cada Estado. Minas tem uma vocação turística muito importante, na área de gastronomia, turismo histórico, religioso, de negócios.

O orçamento do Turismo foi reduzido e depende de emendas parlamentares, mas o senhor não enviou nenhuma. Como reforçá-lo?

 Pois é. Eu consegui quase R$ 110 milhões em dezembro, no apagar das luzes, de emendas de bancadas. As emendas são gestão política. Vou ter que dialogar muito com a Casa Civil, com o Paulo Guedes (Economia) para que a gente consiga executar essas emendas, fazer com que sejam pagas.

O senhor propôs resgatar o patriotismo no turismo. Como?

É a conscientização e a promoção do turismo doméstico. Poxa, eu vou conhecer a Argentina sem conhecer o meu País? É despertar esse sentimento, estimular o viajante brasileiro a viajar dentro do próprio País dele. Somos o primeiro lugar em recursos naturais no mundo, o oitavo em recursos culturais, temos um turismo gastronômico riquíssimo, praias, histórico, religioso... Isso precisa ser melhor trabalhado entre os viajantes brasileiros. Conhecer primeiro a sua pátria, as suas belezas e depois, quem sabe, se aventurar fora do País.

Como convencer o brasileiro a não viajar para o exterior se dentro do País é mais caro?

O primeiro convencimento é apresentar redução no Custo Brasil. O brasileiro faz a conta e, muita vezes, fica mais barato viajar para o exterior. A gente vai precisar trabalhar na transversalidade com outros ministérios. E também ter um trabalho de marketing mais eficiente dentro do Brasil.

A ANAC autorizou a cobrança de bagagem nos voos domésticos. O consumidor não percebeu a prometida queda nos preços. O senhor fará alguma gestão para mudar?

Não adianta isentar um item sendo que a concorrência não existe. Temos hoje quatro empresas operando num País de 200 milhões de habitantes. O mais importante é a gente aprovar a medida provisória que abre as aéreas brasileiras para o capital estrangeiro. Naturalmente as low cost (companhias de baixo custo) vão passar a operar no Brasil. Isso vai promover uma concorrência maior, e aí vamos conseguir redução no preço.

O senhor é favorável à liberação dos jogos de azar?

Não sou favorável. Acho que a gente tem que avançar mais para frente numa discussão que envolve os resorts integrados, como a gente vê em Cingapura. Não de bingo, jogo do bicho... Hoje parece que é muito seguro na questão da Receita Federal, de lavagem de dinheiro, parece que não deixa margem para essas coisas.

Como compatibilizar uma pauta que é bem vista pelo setor do Turismo e não pelo senhor e pela frente evangélica, da qual o senhor participa?

O que arrepia a bancada evangélica e parte da bancada católica é o trabalhador entrar numa porta de bingo, deixar o salário dele lá, e a família ficar desamparada. Os resorts integrados eliminam isso. A pessoa vai para um resort, uma viagem de lazer. A discussão precisa ser focada e restrita nos resorts integrados. Fora isso, não sou a favor de discutir.

O senhor reprova a vaquejada, uma manifestação cultural que movimenta o turismo local no Nordeste. É uma questão pessoal minha que não vai interferir, não vai ter ação nenhuma da minha parte para inibir ou coibir essas ações tidas como culturais.

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