Tarso terá que trocar comando da Funai ao assumir ministério

Uma das principais missões do próximo ministro da Justiça, Tarso Genro, será escolher quem vai comandar a Fundação Nacional do Índio (Funai), um órgão dividido por interesses de caciques, mineradoras, antropólogos e madeireiros. O Palácio do Planalto avalia que o atual presidente do órgão, Mércio Pereira Gomes, não tem mais condições de permanecer na função. A gestão de Gomes na Funai é uma das mais longas e controversas nos 40 anos da Funai. O antropólogo perdeu a confiança das principais lideranças indígenas após sucessivos escândalos e polêmicas. No cargo desde setembro de 2003, ele é criticado pela falta de diálogo com as aldeias. Em julho de 2006, o Estado divulgou dois relatórios indicando que Gomes viajou, num período de três anos, 118 vezes para o Rio de Janeiro, onde ele tem residência, 16 vezes para o exterior e apenas 12 vezes para a região amazônica. O caso está sendo investigado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). A Controladoria Geral da União questionou os gastos com a emissão de passagens.Atitudes polêmicasEm janeiro de 2006, Gomes surpreendeu ao demitir o sertanista Sydney Possuelo, um dos mais destacados indigenistas da atualidade. Possuelo foi demitido ao criticar uma declaração de Gomes de que índio no Brasil tinha muita terra. "Ele (Gomes) fala a língua dos garimpeiros, grileiros e madeireiros", disse Possuelo à época.Também causou perplexidade no meio indigenista a demissão do então diretor de Administração da Funai, Emmanuel Vasconcelos, que havia questionado despesas com um contrato entre o órgão e a entidade Via Pública, classificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Por meio de assessores, Gomes ressaltou na ocasião que o Ministério da Justiça havia liberado os bilhetes aéreos para o Rio e para a Europa e negou prática de irregularidade no contrato com a Via Pública, orçado em R$ 430 mil.DesconfiançaMércio Pereira Gomes perdeu a confiança dos mais influentes líderes indígenas do Alto Xingu. Diante das polêmicas e das dificuldades de diálogos com as aldeias, os caciques Raoni e Megaron Txukarramãe, entre outras lideranças, pediram a autoridades do governo Lula o afastamento do antropólogo. "Ele já está fora", disse Megaron ao Estado. O cacique disse esperar que, agora, o governo decida também melhorar as condições de trabalho na Funai. Gomes ocupa o cargo há três anos e seis meses, um período inferior apenas ao da gestão do general Ismarth Araújo de Oliveira, que ocupou o cargo por cinco anos, de 1974 a 1979.As lideranças indígenas pediram ao governo que a Funai fosse administrada por um índio. O Planalto avisou que não vai atender ao pedido. O governo concorda que muitos índios estão preparados para a função. O problema, segundo assessores da Presidência, é que as divergências entre as etnias inviabilizam a escolha de um nome de consenso para comandar o órgão.

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