Tarso quer sair antes, mas Lula resiste

Lançamento de pré-candidatura escancara divórcio entre PT e PMDB em diversos Estados e movimenta tucanos

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2009 | 00h00

O ministro da Justiça, Tarso Genro (PT), quer deixar o cargo no início do ano que vem para fazer campanha ao governo do Rio Grande do Sul, mas enfrenta a resistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à saída antecipada do governo. Na última reunião ministerial, há oito dias, Lula disse esperar que os ministros-candidatos permaneçam na Esplanada até 3 de abril, prazo estabelecido pela Lei Eleitoral para quem concorrerá em 2010.O presidente admitiu, porém, a possibilidade de analisar caso a caso. Pré-candidata do PT à sucessão de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também chegou a comentar com amigos, logo que descobriu um tumor no sistema linfático, há três meses, que poderia entregar o cargo em janeiro para se dedicar à campanha, caso o tratamento a tirasse da cena política mais tempo do que gostaria. Foi aconselhada por Lula, no entanto, a continuar no Planalto até o prazo-limite."O governo é uma vitrine", disse-lhe o presidente. Levantamento feito pelo Estado indica que 17 dos 35 ministros podem deixar o governo para disputar eleições aos governos, Câmara dos Deputados e Senado. A maioria deles será substituída por secretários-executivos, mas as cadeiras mais vistosas, como Casa Civil, Justiça e Relações Institucionais já despertam a cobiça tanto do PT como do PMDB.O lançamento da pré-candidatura de Tarso ao Palácio do Piratini, no domingo, serviu para escancarar o divórcio entre o PT e o PMDB em diversos Estados - na contramão do desejo de Lula - e agitou o PSDB, partido da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, alvo de uma avalanche de denúncias. "A isenção necessária a um ministro da Justiça recomenda que Tarso se afaste do cargo", cobrou o senador Sérgio Guerra (PE), presidente do PSDB, ao lembrar que a Polícia Federal é subordinada à Justiça.Bem-humorado, Tarso reagiu em tom irônico, mencionando até mesmo a intenção do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), de disputar a eleição ao Planalto, em 2010."Se o governador Serra e a governadora Yeda deixarem os seus cargos, aí, sim, se justifica a minha saída", provocou Tarso. O presidente do PSDB, porém, não se deu por vencido. "Serra e Yeda foram eleitos e ele foi nomeado. Não é aconselhável que o ministro da Justiça se envolva no Rio Grande do Sul, Estado que apresenta uma cena de conflito para a qual pode ser necessária a participação de alguém isento."Embora resolução da cúpula do PT proíba que petistas lancem suas candidaturas aos governos antes de fevereiro, o grupo de Tarso - que controla a corrente Mensagem ao Partido - conseguiu abrir uma brecha para exceções no texto aprovado. Motivo: a direção do PT, que baixou a norma na tentativa de facilitar dobradinhas com o PMDB nos Estados, admitiu autorizar o lançamento de candidatos petistas quando houver consenso em relação aos concorrentes e à montagem dos palanques."O PMDB do Rio Grande do Sul, com raras exceções, não demonstrou interesse de se aliar conosco e não podemos viver de ilusão", afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). "Isso não elimina, porém, a chance de o partido apoiar Dilma no Rio Grande do Sul." Não é uma possibilidade fácil: o PMDB - que ainda não definiu se lança o prefeito José Fogaça ou o ex-governador Germano Rigotto ao Piratini - é inimigo histórico do PT naquele Estado.Na prática, todo o esforço do Planalto para o casamento de papel passado entre o PT e o PMDB tem o objetivo de construir palanques fortes para Dilma. Mas o relacionamento entre os dois maiores partidos da coalizão governista também vai de mal a pior em São Paulo, Bahia, Santa Catarina, Pernambuco, Pará, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.Em São Paulo, Lula agora acha que o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) "é um bom nome" e pode ter o apoio do PT na disputa ao Bandeirantes, hipótese que causa arrepios ao partido. A situação também não é confortável em Minas. No segundo maior colégio eleitoral do País, o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), lidera as pesquisas para a sucessão do governador Aécio Neves (PSDB), mas o PT tem dois pré-candidatos: o ministro de Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.Preocupado, Lula avisou que vai chamar os petistas para conversas. "No balanço geral, há conflitos aqui e ali, mas não há razão para imaginarmos grandes turbulências", amenizou Berzoini.

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