Tariq Ali exclui Lula de ´eixo da esperança´ na AL

O escritor paquistanês Tariq Ali acaba de lançar o seu mais recente livro, em que saúda um grupo de líderes latino-americanos que estaria desafiando o poderio do "império norte-americano" para criar uma força regional que defenda os interesses do sul. Em Pirates of the Caribbean: Axis of Hope ("Piratas do Caribe: Eixo de Esperança", em tradução livre), a figura central é o presidente venezuelano Hugo Chávez. Para Ali, no entanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faz parte deste grupo. Em entrevista à BBC, ele explica o porquê. "O primeiro mandato de Lula foi muito decepcionante. A decisão tomada por seu partido e por seus consultores próximos, e especialmente pelo ex-ministro (Antonio) Palocci, foi não fazer nada que questionasse a ordem econômica estabelecida no Brasil, o que significa manter tudo o que havia sido feito para agradar o FMI e as instituições financeiras globais", avaliou. Para Ali, essa foi uma das razões pelas quais Lula não venceu a eleição no primeiro turno. "Seis milhões de eleitores votaram em um candidato à esquerda dele. Então, espero que, no segundo mandato, o Brasil se torne parte do eixo da esperança", afirmou em referência à candidata do PSOL, Heloísa Helena, que ficou com 6,85% dos votos (pouco mais de 6,5 milhões) no primeiro turno. O escritor paquistanês não vê semelhanças entre as políticas sociais de Chávez e o Bolsa Família de Lula. "As políticas radicais de distribuição de riqueza na Venezuela foram muito mais longe do que em qualquer outro país latino-americano. E a experiência brasileira foi decepcionante, uma visão que é compartilhada pela população brasileira."Ali falou ainda que os escândalos de corrupção envolvendo o PT "foram muito desmoralizantes". "Esse primeiro mandato deveria servir como uma lição para Lula e aquela facção do PT que quer seguir exatamente o que dizem as instituições financeiras globais. Então, vamos ver o que acontece. Mas, até agora, não foi bom", avalia.Em entrevista à BBC, o escritor paquistanês citou três coisas que gostaria de ver um governo progressista brasileiro fazer: reforma agrária, construção de um sistema educacional e política externa independente. "Fiquei muito chocado quando ele (Lula) decidiu apoiar a ocupação do Haiti pelos Estados Unidos: a operação franco-americana no Haiti. Tropas brasileiras foram enviadas para ocupar o país, um general brasileiro cometeu suicídio, outro renunciou, porque só o que ordenavam a eles é que matassem as pessoas pobres daquela ilha."Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial. Escreve periodicamente para o jornal britânico The Guardian e para a revista New Left Review.

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