Tápias propõe aos EUA diálogo sobre aço

O ministro do Desenvolvimento do Brasil, Alcides Tápias, propôs nesta quinta-feira ao secretário do Comércio dos Estados Unidos, Donald Evans, uma negociação direta dos dois países na questão das barreiras americanas ao aço brasileiro e da propriedade intelectual. Segundo Tápias, Evans foi receptivo à idéia.Na questão do aço, a discussão poderia incluir as empresas privadas brasileiras e americanas do setor de siderurgia, disse o ministro.Ele observou que vários grupos nacionais, como Gerdau, CSN e Vale do Rio Doce, já se envolveram em negócios de siderurgia nos EUA e haveria interesse americano em usar placas e bobinas brasileiras para fabricar produtos mais acabados.O encontro de Tápias e Evans em Buenos Aires, paralelo à reunião do Comitê de Negociações Comerciais (CNC) da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), é uma mostra da estratégia brasileira na discussão do bloco panamericano.Embora a proposta de Tápias a Evans seja de uma negociação bilateral, ela se encaixa na resposta brasileira à aparente determinação do governo americano, especialmente depois da posse de George W. Bush, de promover com mais energia o livre comércio nas Américas.A idéia que parece ganhar corpo entre os negociadores brasileiros é a de deixar claro que avanços na negociação da Alca dependem de concessões nas áreas mais sensíveis aos americanos, como subsídios à agricultura e legislação antidumping (que pode ser usada para barrar produtos mais competitivos, como os brasileiros alegam, no caso do aço).Tápias disse ter perguntado a Evans se a falta de flexibilidade dos delegados americanos nos grupos de trabalho do CNC era uma real falta de vontade de negociar, ou se era apenas uma tática para deixar tudo para ser decidido pelos ministros dos 34 países, no sábado. Evans teria dito que está no atual cargo há pouco tempo e não tinha condições ainda de responder.De qualquer forma, percebe-se que a postura brasileira começa a se cristalizar em torno de um desafio aos americanos: se querem realmente a Alca, que façam concessões em pontos-chave.No extremo, aquela posição inclui aqueles, como uma alta fonte diplomática brasileira, para quem os americanos estão blefando: "Os Estados Unidos não querem livre comércio; 90% dos colchetes foram colocados pelos americanos." Ele se referiu aos textos dos documentos que estão sendo preparados pelo CNC em Buenos Aires.A mesma fonte duvida que o governo Bush consiga obter a Trade Promotion Authority (TPA) do Congresso americano, um mecanismo pelo qual o Legislativo pode apenas aprovar ou derrubar na sua totalidade acordos comerciais fechados pelo Executivo."Se o Clinton (Bill Clinton) não conseguiu o fast-track (outro nome para a TPA) enquanto a economia americana estava crescendo, não é agora com a ameaça de recessão que o Bush vai conseguir", disse a fonte diplomática, em referência ao fato de que o protecionismo tende a recrudescer em momentos de aperto econômico.O risco da aposta na falta de vontade ou de capacidade dos EUA para negociar a Alca, porém, é a de que o país pague para ver. A delegação de empresários americanos presente ao 6º Fórum Empresarial das Américas, por exemplo, não parece avessa a negociar."Os Estados Unidos terão de se mover nas questões da agricultura e das leis antidumping", disse Robert Petterson, vice-presidente para a América Latina da Caterpillar e chairman da sessão americana do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos.Petterson é um ativo participante do chamado "Diálogo Brasil-Estados Unidos", que reúne empresários dos dois países na tentativa de se chegar a uma lista de pontos consensuais a ser apresentada aos negociadores oficiais dos dois países.O grupo é uma versão mais focalizada do processo em curso no fórum aberto oficialmente nesta quinta-feira em Buenos Aires, no qual mais de 700 empresários dos países participantes da Alca vão elaborar um documento de sugestões a ser encaminhado aos negociadores.William Lane, representante da Caterpillar em Washington e responsável pelos contatos da empresa com o governo americano acha que a obtenção da TPA por Bush "é factível" e prevê outubro como data possível, pouco antes da reunião da Organização Mundial do Comércio em Catar, em novembro.Outro ponto em que Petterson não se opõe à posição brasileira é a data de 2005 para o encerramento das negociações da Alca. "2005 está logo ali, e mais importante é a velocidade com que o acordo vai ser implementado depois de fechado", ele disse.Nesse sentido, o secretário do Comércio americano admitiu pela primeira vez uma posição contrária à que vem sendo defendida pelos americanos. "Percebo que não devemos perder de vista o ano 2005 como a data mais adequada para se chegar a um acordo."

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