Arquivo Pessoal
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Tapas, socos e choques: a tortura atinge os oficiais

A história da prisão do coronel Sylvestre e de seus colegas pelo DOI de São Paulo durante a caçada ao PCB mostra como o regime usou a violência para reprimir seus opositores

Marcelo Godoy - O Estado de S.Paulo,

28 de março de 2014 | 15h21

"Seu filho da puta, traidor. Hoje você fala!" Mandaram-no ficar nu e o sentaram na cadeira do dragão. O tenente-coronel Vicente Sylvestre nunca imaginou que seria torturado. A energia dos choques elétricos atravessava-lhe a alma, e a madeira que prendia suas pernas entrava em sua carne. Sua condição de oficial não lhe serviu de proteção nos interrogatórios do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do 2.º Exército, em São Paulo.

A cabeça girava. Lembrava de sua prisão. Era 9 de julho de 1975 quando um carro da Polícia Militar estacionou diante de sua casa, no Butantã, na zona oeste de São Paulo. Dele desceu o coronel Bruno Éboli Bello, chefe do Serviço de Informações da PM. Sylvestre chefiava o Estado-Maior do Policiamento Interior e foi levado ao quartel-general (QG) da PM. O tenente-coronel não era o primeiro militar preso desde que o DOI de São Paulo intensificou a caçada ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 1974.

Criado em 1969 para pôr ordem na repressão, o destacamento centralizou o "combate à subversão no País", assumindo o lugar do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, onde pontificava o delegado Sérgio Fleury. O trabalho no DOI fez com que dezenas de agentes fossem condecorados pelo Exército com a medalha do Pacificador. Em sua história, o órgão prendeu 2,6 mil pessoas, 51 das quais, segundo os militares, morreram. A conta não inclui a morte de 28 pessoas enviadas a outros cárceres ou que desapareceram - a maioria em ações comandadas pelo capitão Ênio Pimentel da Silveira. O projeto Brasil Nunca Mais listou 876 denúncias de tortura contra o órgão.

Sylvestre é parte dessa estatística. "Traíste a tua Pátria e o teu comandante", gritou o então comandante da PM, o general Francisco Batista Torres de Melo, ao ver o subordinado. Sylvestre ficou em uma cela no porão do QG. Dias depois, uma equipe do DOI, chefiada pelo agente conhecido como Capitão Ubirajara, foi buscá-lo. O homem quis encapuzá-lo ali mesmo, mas Éboli não deixou. Obrigaram-no, no entanto, a vestir o macacão verde dos prisioneiros do DOI.

Oficiais. Torturavam-se presos políticos e comuns no Brasil antes do regime de 1964. Mas dizia-se que isso não atingia os oficiais. O capitão Luís Carlos Prestes, por exemplo, ficara em uma solitária e vira a mulher, Olga Benário, ser entregue pelo ditador Getúlio Vargas à Gestapo após a repressão ao levante comunista de 1935. Mas não tocaram em seu corpo ou nos dos outros oficiais presos.

Após 1964, nenhum oficial preso teve a integridade física garantida - o mais famoso, o capitão Carlos Lamarca, foi morto em 1971. Em 3 de abril de 1974, a Seção de Investigação do DOI sequestrou em São Paulo Walter de Souza Ribeiro. Integrante do Comitê Central do PCB, ele fora reformado ainda tenente pelo Exército em 1951 após assinar um manifesto pacifista. Levado à Casa da Morte, o cárcere clandestino de Petrópolis, no Rio, foi morto com uma injeção para sacrificar cavalos e esquartejado.

Sylvestre teve um destino diferente. Conduziram-no ao quartel do DOI, no Paraíso, na zona sul. Acusavam-no de militar na base do PCB. Foi interrogado por oito dias sob as ordens do major Dalmo Muniz Cyrillo. Ficou sem comer. Perguntam-no se o comunismo era o regime ideal para o País. "Não é ideal só para o povo brasileiro, como também para todos os povos", respondeu. Apanhou de porrete e palmatória. Para os agentes, a tortura "fazia o preso falar". Ela não devia poupar nem os colegas de farda. "O Sylvestre foi pro pau sim. A gente passou a ver aquele grupo como traidores que nos matariam se pudessem", disse o agente Chico (nome fictício), do DOI.

Além de Sylvestre, outros dois coronéis da PM foram presos e torturados. Ao todo, cerca de 70 policiais foram detidos, o que contrariou o então secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias. "Acharam que tinham o direito de pegar qualquer um. Quiseram fazer com esse pessoal o mesmo que faziam com gente da ALN, da VPR e do MR-8", disse em entrevista ainda inédita. Temendo a reação da PM, o governador Paulo Egydio Martins quis pôr um ponto final à ação do DOI. Procurou seus interlocutores em Brasília.

Em 23 de julho de 1975, Sylvestre e outros saíram do órgão. Por pouco tempo. Voltaram em 5 de agosto. Puseram-no no pau de arara. Depois, um dos torturadores chutou sua cabeça como se fosse uma bola. Ergueram-no e prenderam os braços em argolas chumbadas na parede, acima de sua cabeça - uma invenção do Capitão Ubirajara. Viu passar outro preso, o tenente reformado da PM José Ferreira de Almeida, o Piracaia, de 63 anos. Queriam nomes. De militares do Exército. Piracaia não resistiu. Na versão do DOI, o tenente se suicidou, enforcando-se com o cinto do macacão amarrado à grade da janela. As pernas dobradas no chão mostravam que não havia altura suficiente para que se pendurasse. Era a primeira morte da série que se completaria com o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho.

O destino de Piracaia recrudesceu a reação às prisões no governo de São Paulo. O comandante do 2.º Exército, general Ednardo D’Ávila Melo, pediu que o coronel José Barros Paes cuidasse do problema. Paes chefiava a 2.ª Seção do Estado-Maior do 2.º Exército. Mandava na repressão em São Paulo.

Os rumores de que Sylvestre havia sido torturado chegaram a Brasília. O caso parou na mesa do ministro do Exército, Sylvio Frota, o que fez dele uma história rara, em que a tortura foi admitida em reunião do Alto Comando do Exército. A ata do encontro, assinada por Frota, relata o espancamento.

Casa. Paes foi ao DOI e mandou Sylvestre ao Hospital dos Defeitos da Face . "Você tem de devolver o coronel à polícia, mas você não pode mandar o oficial de volta com o olho da maneira em que está", contou Paes. Em 18 de agosto, outro militar preso morreu. Era o coronel José Maximino de Andrade Neto, que, no dia anterior, havia sido despachado pelo DOI às pressas para sua casa. Sylvestre sobreviveu. Foi expulso da PM e, após o regime, anistiado. Quase 40 anos depois, ao lembrar do caso, o coronel Éboli, que o prendeu, disse: "Foi tudo lamentável". No fim dos anos 1970, o DOI parou de matar. Desidratado, sobreviveu ao regime que o criou. Só em 1991 a parceria entre policiais e militares sob o mando do Exército seria desfeita.

AUTOR DO LIVRO A CASA DA VOVÓ (ALAMEDA), A SER PUBLICADO, SOBRE A HISTÓRIA DO DOI.

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