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Tão perto e tão longe

Desde que Itamar Franco assumiu a Presidência da República no lugar de Fernando Collor, cassado em 1992 num processo de impeachment, nunca a situação política foi tão favorável para que PMDB, PSDB e DEM permaneçam no núcleo central do poder por muitos anos, tanto no Executivo quanto no Legislativo.

João Domingos, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2016 | 04h00

Mas se a situação política nunca esteve tão favorável a esses três partidos, ela também nunca esteve tão incerta. Não só pela indefinição quanto a nomes, qual legenda encabeçará a chapa que vai disputar a eleição presidencial em 2018, se vão unir forças ou se vão se dividir. Mas também, e principalmente, porque não é possível dizer se quem está de pé hoje num desses partidos não estará abatido politicamente amanhã.

Porque se a situação já era confusa por causa das investigações da Operação Lava Jato, que a todo instante ameaçam bater à porta de algum governista importante, agora com a prisão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é que ficou esquisita.

A possibilidade de Cunha vir a fazer um acordo de delação premiada assusta. E se assusta é porque alguém deve. E, desde que a Lava Jato foi aberta, todos os que devem têm motivos para temer. 

Pela posição que ocupou no PMDB e na Câmara, de líder do partido e presidente da Casa, a partir da montagem de uma base de apoio pessoal, e para a qual destinou dinheiro para gastos em eleição, como ele mesmo costumava dizer para quem quisesse ouvir, Cunha é o delator objeto de desejo de qualquer força-tarefa que participe de uma investigação. Ele sabia tudo de nomeações para estatais, liberação de verbas orçamentárias, emendas a projetos de lei e a medidas provisórias. 

Se a delação do ex-líder do governo Delcídio Amaral causou tantos estragos, e continua causando, imagine a de Cunha, se for feita. Ele estava muito mais enfronhado e antenado em todo tipo de coisa que acontecia no Congresso e no governo do que Delcídio Amaral, disso não resta nenhuma dúvida.

Portanto, não é exagerado repetir que quem hoje está de pé no triunvirato de partidos que decide as coisas no governo amanhã pode não estar mais. É por isso mesmo que a apreensão é tão grande no Congresso e no governo.

Em termos comparativos, uma eventual delação de Eduardo Cunha terá maior poder de explosão do que as dos ex-diretores da Petrobrás Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró, do ex-gerente Pedro Barusco, e de tantos outros. 

Talvez uma delação de Eduardo Cunha só encontre rival em revelações que venham a ser feitas pelo empresário Marcelo Odebrecht. Mas este tratava de questões relacionadas com o funcionamento de sua empresa, embora com gente de todos os partidos. Cunha falava com gente de todos os partidos, empresários, governo central e estaduais e trabalhava também a elaboração de leis e emendas a elas. 

As seguidas delações que já foram feitas até agora praticamente destruíram o PT e puseram nele um carimbo de corrupto. O primeiro resultado apareceu na eleição municipal, quando o partido só não foi varrido dos mapas eleitorais porque venceu em Rio Branco, onde está no poder há mais de uma década, e em pequenas cidades. O segundo turno vai completar o estrago, a se observar as pesquisas eleitorais feitas até agora. 

Dependendo do que Cunha vier a dizer, como tem ameaçado fazer, de repente PMDB, PSDB e, talvez, o DEM, venham a ficar na mesma situação do PT. Sem contar o que poderá ser dito também por Marcelo Odebrecht. 

No momento, a alternativa para o presidente Michel Temer é correr para aprovar as reformas fiscais e aproveitar a base de 414 deputados que ele tem na Câmara, a maior desde a redemocratização, como costuma dizer o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil). Daqui uns dias, quem sabe o que sobrará?

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