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Também alvo de espionagem americana, Índia não altera postura com os EUA

Primeiro-ministro do país deve se reunir com Obama nesta quarta-feira; denúncias apontam que espionagem foi mais profunda do que Washngton e Nova Délhi admitem

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2013 | 19h10

O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, não cancelou seu encontro bilateral como presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, agendado para esta quarta-feira. Apesar das denúncias publicadas pelo jornal "The Hindu" nos últimos dias sobre a espionagem americana no alto escalão do governo indiano e em grandes empresas, com a coleta de informações sensíveis para o país, a pauta dessa terceira conversa reservada entre Singh e Obama desde 2009 foi aprofundada nos temas econômicos, nuclear e espacial. Do encontro, é esperada a assinatura de um contrato de fornecimento de reatores pela americana Westinghouse à estatal indiana Nuclear Power Corporation.

A decisão de Singh de manter o encontro com Obama foi criticada por setores da sociedade indiana, em especial pelo próprio "The Hindu". Com a parceria do jornalista Glenn Greenwald, guardião dos arquivos sobre a espionagem dos EUA coletados por Edward Snowden, o jornal revelou que a Índia também foi alvo de monitoramento mais profundo do que o alegado até o momento por Washington e Nova Délhi.

O material publicado não mencionou se houve ou não espionagem direta da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) no gabinete de Singh. Mas seu próprio governo concluiu ter havido monitoramento nas esferas política, burocrática e científica ao analisar o capítulo "Índia" de um documento confidencial da NSA sobre o trabalho do programa Prism. Esse programa é usado pela agência americana para capturar o conteúdo de chamadas telefônicas e de comunicações eletrônicas de governos, empresas e cidadãos comuns. O material coletado na Índia não dizia respeito a ações de combate e prevenção ao terrorismo - a razão oficial do amplo escopo da espionagem da NSA nos EUA e no resto do mundo.

"Como (as palavras) políticos, espaço e nuclear foram mencionadas como ´produtos finais´neste documento, isso significa que e-mails, textos e telefonemas de pessoas importantes relacionadas a esses campos foram monitorados constantemente (…) e então o NSA preparou relatórios oficiais com base nesses dados de inteligência", afirmou uma autoridade da agência indiana de inteligência ao "The Hindu". "Isso significa que eles estão ouvindo em tempo real o que nossos líderes políticos, burocratas e cientistas estão comunicando entre si", completou o informante, sob condição de anonimato.

A reação de Singh, porém, contrastou com a da presidente Dilma Rousseff, que cancelou a visita de Estado a Washington prevista para 23 de outubro depois de evidências trazidas a público sobre a espionagem americana em suas conversas com assessores e na Petrobrás. A ausência de desculpas plausíveis pelo governo americano, da promessa de parar a atividade de espionagem no Brasil e de disposição para compartilhar com Brasília o conteúdo em mãos de Snowden, engrossaram a sua reação. Mesmo sendo um parceiro do País nos mecanismos de cooperação Ibas e Brics, não se espera apoio de Singh a Dilma na questão de espionagem americana. A Índia, porém, tem com os EUA uma relação particular.

Trata-se de um país estratégico, do ponto de vista americano, na contenção da China, estabilização do Afeganistão e nas questões do Paquistão e do Irã. A Índia não será um aliado tão profundo de Washington como a Alemanha e o Japão. Essa potência nuclear, porém, obteve de Obama o apoio público a seu acesso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas - algo que o Brasil jamais conseguiu. O comércio pode ser atribulado por medidas restritivas e protestos de lado a lado, mas somou US$ 38 bilhões de janeiro a julho, com déficit de US$ 12,3 bilhões para os EUA.

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