Tabatinga: a tríplice fronteira da desconfiança

À beira do Solimões, a cidade de onde parte a expedição é fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia

Roberto Almeida, O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2009 | 16h35

Tabatinga - Depois de 2h30 de voo de Manaus em um avião Fokker 50, despontou Tabatinga na janelinha. À beira do Solimões, a cidade de 40 mil habitantes é de tríplice fronteira, como Foz do Iguaçu.

 

 

 

 

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Nesse caso, para ir ao Peru, é preciso cruzar o rio. Para ir à Colômbia, é só atravessar a rua que a cidade muda de nome – transforma-se em Letícia - e o comércio começa a falar espanhol, com cumbias em altos volumes.

 

 

Ali, na fronteira, um solitário guarda da polícia nacional colombiana faz as vezes de agente fiscalizador e não há presença da polícia brasileira, apesar de ser uma notória rota de entrada de drogas no País.

 

A Polícia Federal, no entanto, está firme no aeroporto. No domingo, dia 30, um homem foi preso tentando embarcar com cocaína adesivada ao corpo.

O Ministério Público Federal em Tabatinga sofre com mudanças constantes de seus quadros. Segundo o procurador Juliano Gasperin, há sete meses no cargo, ele está próximo de bater um recorde. Ninguém ficou mais do que ele até hoje em Tabatinga.

Gasperin diz que não há problema de continuidade. O trabalho segue adiante, e a luta contra quadrilhas que operam na área tem tido sucesso, afirma. Um dos chefes do crime em Tabatinga morreu, o outro está para ser extraditado.

 

Agora, observou o procurador, a cidade ganhou seu primeiro promotor em três anos. E pode melhorar ainda mais. Mas ele não descarta a possibilidade de que membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) estejam transitando por ali.

 

Tabatinga é riscada, lado a lado, pela Avenida da Amizade. Tem um posto de gasolina e um semáforo. Mas o trânsito de motos compradas a preço de banana na Colômbia é incessante.

 

Arlindo Ferreira é mototaxista. Cobra R$ 2 por uma corrida dentro de Tabatinga. Para ir à Colômbia, cobra R$ 4. Diz que tira R$ 40 por dia no serviço e já construiu seu “tapirizinho”.

 

Casado, tem seis filhos, é mais um dos que tentam ganhar a vida nessa fronteira pobre e distante do resto do Brasil. “Com qualquer R$ 1.000 dá pra tirar moto na Colômbia. Nem precisa comprovar renda”, explicou.

 

A sua moto, porém, foi financiada pela nora que mora em Manaus. E veio de barco, porque Tabatinga não tem estrada.

 

O poder público mal começou a tomar as rédeas da situação. Agora andar de moto sem capacete dá multa, mas é comum ver bebês de colo nos braços dos passageiros.

 

O transporte coletivo é feito por parcas kombis que passam pela aldeia ticuna de Umariaçu, a leste da cidade, cruzam o centro de Tabatinga, e levam os passageiros até Letícia.

 

Nos três dias que a reportagem passou na tríplice fronteira, não viu uma abordagem policial sequer. O clima em Tabatinga é de uma tranquilidade tensa. Sorrisos são escassos e a hospitalidade, desconfiada.

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