Suspensão de cotas na UFSC causa polêmica no Estado

Na segunda, a Justiça determinou que o sistema fosse suspenso na univerdidade porque não foi criado por lei

Rafael Carvalho, de O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 18h52

A decisão da Justiça Federal Catarinense, que suspendeu o sistema de cotas sociais e raciais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) vem causando imensa polêmica no Estado. Muitos estudantes que optaram pelas cotas agora não sabem se poderão fazer a matrícula, muito menos se poderão freqüentar as aulas, que começam dia 3 de março. Veja Também: Justiça suspende sistema de cotas da Universidade Federal de SC  Apesar do calor das discussões, o Reitor da UFSC, Lúcio Botelho, continua tranqüilo ao afirmar que a UFSC conseguirá derrubar a liminar em instâncias superiores e deve entrar com o recurso ainda nesta quarta.  Longe das discussões, mas altamente interessada nos resultados dela, está a estudante Anastácia Schwanke Schroeder, de 19 anos. Ela prestou vestibular pela terceira vez e acredita que não passou este ano por causa das cotas. Para ela, não é justo que uma pessoa passe no vestibular fazendo menos pontos que outra. "As cotas acabam tratando de forma diferente pessoas que, na verdade, são iguais". Já para o estudante e pai de quatro filhos Horácio Machado, de 45 anos, a coisa não funciona bem assim. Ele já estuda matemática na UFSC e passou no vestibular par arquitetura pelo sistema de cotas: "Os bons arquitetos começam a ficar realmente bons depois de uma certa idade", avalia.  Para Machado, o argumento utilizado pelo Ministério Público - que se baseou na Constituição para suspender o sistema de cotas - não é justo. "A Constituição diz que todos são iguais, mas isso não é verdade. Durante muito tempo houve muita gente enriquecendo com a escravidão e isso se reflete até hoje, por exemplo no acesso ao ensino superior público", avalia. Para ele, hoje existem pouquíssimas chances do negro se firmar na sociedade. "A opção do negro atualmente é se armar nos morros para comandar o tráfico, até que surja uma chance para ele mudar de vida realmente", avalia.   Ainda segundo a opinião de Machado, a universidade deve honrar o seu nome e universalizar seu ensino, dando acesso a quem sempre viveu às margens da sociedade. Ele aponta outra disparidade na decisão do juiz Gustavo Dias de Barcellos, que suspendeu o sistema de cotas da UFSC: "Lá ele afirma que 'o receio de dano irreparável ou de difícil reparação decorre da iminência da realização das matrículas'. E quanto a mim? Ele não teme que, com a sua decisão, ele possa causar um dano irreparável à minha moral ou à de tantos outros negros que comemoraram a vitória e agora podem perder a vaga?", pergunta.

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