Afonso Braga / Rede Câmara
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Suspeita de fraude científica e kit covid marcam sessão da CPI na Câmara Municipal de SP

Sessão ouviu Jorge Venâncio, coordenador do Comitê de Ética Pública (Conep), e Bruna Morato, advogada dos médicos que denunciaram a empresa

Natália Santos, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 16h55

O coordenador do Comitê de Ética Pública (Conep), Jorge Venâncio, e a advogada Bruna Morato, representante dos médicos que denunciaram a Prevent Senior, prestaram depoimento nesta quinta-feira, 21, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Paulo. Durante a oitiva, manifestantes a favor da empresa se reuniram em frente ao prédio do Legislativo municipal. 

Em seu depoimento, Jorge Venâncio disse que o estudo da Prevent Senior sobre o uso de hidroxicloroquina com associação à azitromicina, que contou com mais de 630 pessoas, apresenta indícios de fraude científica.

Segundo o coordenador, o estudo foi aprovado pelo Conselho de Ética no dia 14 de abril de 2020, e 3 dias depois, no dia 17, a Prevent Senior liberou um pré-print com dados sobre o estudo. “É materialmente impossível alguém fazer um estudo com mais 600 pessoas em três dias e ainda escrever o resultado todo. É claro que a pesquisa já estava feita anteriormente”, disse. No dia 20, a pesquisa foi suspensa pelo Conep e foi feita uma convocação com os responsáveis pela pesquisa. A gravação deste encontro será enviada para a CPI.

Venâncio afirmou que, para a Conep, a Prevent Senior alegou que houve um “equívoco” em colocar o número da pesquisa no pré-print. A empresa ainda completou que o artigo seria um levantamento de atendimentos que eles teriam feito anteriormente e que não teria relação com a pesquisa aprovada pela Conep. 

“É muito estranho você apresentar uma publicação de um estudo que eles alegam que era observacional. Mas, primeiro, estudos observacionais têm que passar no sistema CEP/Conep. Não há nenhum motivo para um estudo observacional ser feito escondido. Segundo, apresentar um estudo com o número de outro estudo que tinha sido aprovado 3 dias antes, isso é um indício de fraude científica muito forte”, disse. O Conep não aceitou as justificativas da Prevent Senior e foi feita uma representação no Ministério Público Federal, que abriu um inquérito em São Paulo. 

O presidente da CPI, Antônio Donato (PT), questionou se a Prevent Senior já havia realizado pesquisas anteriormente. Em resposta, Venâncio informou que existem protocolos anteriores de pesquisa da empresa, mostrando experiência dessa na área. 

Durante o depoimento, Venâncio ainda afirmou que o Conep é um órgão independente que tem como objetivo garantir a proteção das pessoas que participam de pesquisas, em termos de seguranças e direitos. Os termos de consentimento para participação de pesquisa, por exemplo, é da alçada da Conep, que busca com que esses documentos sejam feitos  “de forma adequada”, exigindo que seja relatado aos participantes todas as informações sobre o estudo, princípio básico do Código de Nuremberg.             

Durante a pandemia de covid-19, o Conep encaminhou três representações ao Ministério Público Federal: esse estudo da Prevent Senior, o caso de utilização de cloroquina inalável em Manaus e pesquisa, aprovada para ser realizada em Brasília, com proxalutamida contra Covid que teve 200 mortes em todo o país.

Kit Covid

A advogada Bruna Morato utilizou o espaço para relatar sobre os “Kits covid” entregues pela empresa. “Os médicos que não batiam as entregas de kits entregues eram punidos”, disse. Inicialmente, as embalagens, segundo ela, eram compostas por comprimidos de azitromicina, hidroxicloroquina, composto de vitamina e proteína. Posteriormente, novas drogas foram adicionadas, relata. As compras começaram em março e os números obtidos por Morato foram a partir de cruzamentos de notas fiscais da Prevent.

Em depoimento, Bruna Morato ainda apresentou os óbitos que pacientes da Prevent Senior e informou que existe prova para “absolutamente tudo” que foi apresentado pelos médicos que ela assessora. “Existe a comprovação desses óbitos, o pré-print, outro documento disponibilizado pela Prevent Senior que confirma o efeito benéfico da cloroquina e da hidroxicloroquina.”

Quanto aos tratamentos, segundo o que foi relatado por médicos, muitos pacientes passaram a ser atendidos com tratamentos paliativos porque não houve aprovação pela empresa de investir no tratamento tradicional desses clientes. “Se você tem um paciente que paga uma mensalidade de R$ 500 a R$ 700 e gera uma arrecadação anual de X e com a internação dele, com menos 15 dias de UTI, ele vai gastar 10X, ele não é um paciente interessante porque, pelo o ponto de vista econômico, ele inviabilizaria o negócio”, disse.

Os relatos ainda contam que a orientação recebida pelos médicos era não passar todas as informações aos pacientes. “Então, não existia uma informação do que é um tratamento tradicional, que é investir no paciente, e o que é levar esse paciente para medidas de conforto”, disse. 

“A questão é que a falta de fiscalização das autoridades competentes fez com que existisse a falta impressão de segurança para que essas condutas fossem tomadas de forma exacerbada. Não é um relato. São inúmeros, são práticas comuns.” 

Manifestação

Durante a sessão, manifestantes a favor da Prevent Senior se encontram em frente à Câmara. Thamires Pedra, 33, estava presente. Segundo a colaboradora e cliente da empresa, já havia um interesse de algumas pessoas em realizar uma manifestação contrária à CPI. “A gente acredita que a Prevent está sendo vítima de um linchamento público com argumentos infundados com os quais a gente rechaça e não acredita”, disse.

Segundo Thamires, a organização foi feita pelos colaboradores e beneficiários, sem interferência da empresa e contou com informativo, enviado por ela mesma por meio de seu e-mail pessoal, à polícia para que fosse uma manifestação pacífica.  “Nós apoiamos as investigações técnicas, processos, porque queremos que a verdade apareça.” 

Na sessão, Celso Giannazi (PSOL)  disse que o objetivo da CPI não é fechamento de empresa. “O objetivo é que seja apurada a responsabilidade de quem determinada a forma de tratamento, quem coloca o lucro em cima da vida e de ações negacionistas “, disse.

Prevent Senior nega acusações

Em nota à imprensa, a Prevent Senior afirmou que “a advogada Bruna Morato é autora de uma tese fantasiosa e será responsabilizada judicialmente por denunciação caluniosa e outros crimes”. A nota ainda complementa dizendo que o depoimento de hoje na Câmara Municipal de São Paulo foi “pródigo em mentiras e narrativas criadas somente depois que a advogada fracassou em tentar um acordo milionário com a empresa”. 

A Prevent Senior afirma tem interesse em investigações técnicas, sem contornos políticos, que sejam realizadas pelo Ministério Público e que repele “o linchamento público do qual foi vítima junto com seus 3 mil médicos e cerca de 12 mil funcionários, sem direito à ampla defesa e ao contraditório”.

Quanto ao depoimento de Jorge Venâncio, a Prevent Senior informa que não cometeu fraudes e que apenas “publicou uma descrição da evolução de casos entre pacientes que haviam usado os medicamentos, comparando-os com aqueles que optaram por não utilizá-los”. 

Segundo a empresa, os dados dos pacientes serão avaliados nas investigações técnicas, “o que comprovará a inexistência de ação fraudulenta”. A nota ainda complementa que, no depoimento, o próprio Jorge Venâncio diz não haver “certeza absoluta” sobre o tema, ao comentar as explicações feitas em 2020 à Conep.

 

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