Suspeita de favorecer Renan, secretária corrige depoimento

Relatores já haviam reclamado da demora na liberação da transcrição do depoimento do presidente do Senado

25 de agosto de 2007 | 11h40

Há cinco meses no cargo de secretária-geral da Mesa, a psicóloga Cláudia Lyra tem deixado suspeitas sobre sua atuação no processo contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Na última sexta-feira, fone no ouvido, mãos trêmulas e olhar de quem acabara de ser surpreendida fora de sua sala de trabalho em pleno horário de expediente, ela gaguejou ao ser flagrada por jornalistas fazendo correções no depoimento de Renan.   Cronologia do caso Renan     Denúncias contra Renan abrem três frentes de investigação  Veja especial sobre o caso Renan    Cláudia identificou oradores e incluiu frases não captadas - segundo ela - pela equipe de taquigrafia do Senado. "Fui olhar as notas taquigráficas e vi que havia algumas partes faltando", alegou. "Vim colocar as frases na boca de quem falou." A revisão de textos é permitida no Senado e na Câmara - e é prática comum por parte dos parlamentares. Incomum é a própria secretária-geral fazer isso.   A secretária-revisora exibiu força maior que a dos próprios relatores do processo. A senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), por exemplo, passou o dia atrás da transcrição. "Decidi ficar em Brasília no fim de semana para trabalhar em cima disso, mas até agora não recebi nada", reclamou Marisa.   Outro relator, Renato Casagrande (PSB-ES), disse estranhar a demora em liberar a transcrição. "Perdemos a sexta-feira. É um atraso inaceitável." Ele disse que vai denunciar se houver mudanças entre o que Renan falou e a transcrição.   Além da suspeita de que possam ocorrer deturpações no depoimento de Renan, com a intenção de favorecê-lo, a atitude da secretária-geral conseguiu impedir que jornais, TVs e revistas semanais tivessem acesso à íntegra da versão de Renan.   Um dos trechos do depoimento a que o Estado teve acesso - em um computador aberto próximo de Cláudia - mostra que o presidente do Senado teve dificuldade para responder às dúvidas dos relatores. Ele foi assessorado pelo aliado Gilvam Borges (PMDB-AP) para responder, por exemplo, sobre o espólio que seu pai teria deixado para a família. "Tem o espólio", diz Renan. "O espólio é o da Santa Rosa", completa o aliado. Santa Rosa é uma das fazendas de propriedade do presidente do Senado.   Claúdia entrou para o Senado sem prestar concurso. Duas filhas dela e uma irmã ocupam cargos de confiança. Carla está na liderança do PMDB, Marina trabalha nas comissões e a irmã Marta é secretária de Renan.   Abril   Um dia depois de prestar esclarecimentos aos relatores do processo contra ele em curso no Conselho de Ética, o presidente do Senado voltou a atacar o grupo Abril, que edita a revista Veja. Numa repetição de discursos anteriores, Renan acusou a Abril de "transação ilegal" do processo de venda da TVA para a Telefônica.   "A idéia é trocar os acionistas, os laranjas, como foi chamado na oportunidade, na tentativa de aprovar um negócio flagrado na ilegalidade, conforme voto de um conselheiro da Anatel publicado na própria internet", afirmou Renan no discurso. "Quero reiterar que a negociata fere os interesses nacionais, restringe a concorrência e agride o mercado."     Segundo o presidente do Senado, ao tentar transferir o controle total da TVA para a Telefônica, empresa estrangeira, "o grupo Abril, dono da revista Veja", desafia a legislação brasileira.   Recentemente, a revista Veja publicou reportagem segundo a qual Renan teria usado laranjas para comprar um jornal e duas emissoras de rádio em Alagoas em sociedade com o usineiro e ex-deputado João Lyra. Agora é o senador quem acusa o grupo Abril de usar esse expediente.   Processos   Renan responde no Conselho de Ética por suspeita de quebra de decoro parlamentar. Ele teria suas despesas pessoais pagas pelo lobista Claudio Gontijo, ligado à construtora Mendes Junior.   Além deste caso, Renan é alvo de mais duas representações no órgão. Ele teria beneficiado a cervejaria Schincariol, que comprou uma fábrica de refrigerantes falida da família de Calheiros. Na terceira, ele terá que explicar uma acusação de que seria dono oculto de duas emissoras de rádio em Alagoas.   (Colaboraram Ana Paula Scinocca, Rosa Costa e Expedito Filho, do Estadão)

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