Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Surpreendido com delação, governo tenta dosar discurso sobre Delcídio

Senador era o líder do governo no Senado, ou seja, representava o Planalto no Congresso e também tinha trânsito não só no Planalto, como no Alvorada, residência da presidente Dilma

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2016 | 12h31

Brasília - O governo recebeu com perplexidade e surpresa as notícias da delação premiada do senador Delcídio Amaral (PT-MT) na qual ele teria tratado da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás e tentado envolver a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tentativa de interferir na Operação Lava Jato por meio do Judiciário.

Toda a movimentação de assessores do Planalto foi no sentido de desqualificar as afirmações. A presidente Dilma Rousseff, depois de participar da cerimônia de posse dos novos ministros, não quis responder a perguntas sobre a delação. Mas, pouco antes, usou seu discurso para criticar "vazamentos seletivos e ilegais", fazer defesa do seu governo, dizendo que a corrupção não começou na gestão petista e que todos têm direito à presunção de inocência e não pode haver "execração pública" de ninguém.

O tema tomou conta da cerimônia de posse dos três novos ministros da Justiça, da Advocacia-Geral da União e da Controladoria-Geral da União.

O novo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, disse que o governo vai responder às acusações. Depois da cerimônia de sua posse, ele se reuniu com a presidente Dilma Rousseff. "Se o Delcídio fez delação premiada, não tem credibilidade nenhuma. Ele mandava recados com ameaças se não fosse tirado da prisão. Dizia que ia retaliar o governo", declarou Cardozo.

"Ele foi e voltou em várias declarações que fez em relação ao Supremo", emendou. Questionado se Delcídio sabe o suficiente para ser perigoso para o governo, ministro Cardozo respondeu: "não sei o que ele sabe, mas da parte que eu sei, que é de nomeação de tribunais, não tem o menor cabimento. Para vocês terem uma ideia, da Câmara que julgou os habeas corpus da Lava Jato, três ministro foram nomeados por nós e dois votaram contrário. Portanto, não tem menor cabimento". 

Os ministros da Secretaria de Comunicação, Edinho Silva, e o ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, disseram que não tinham visto a denúncia e que só falariam depois. O ex-advogado da União Luís Inácio Adams disse que Delcídio "não é a testemunha mais crível da República".

O governo ainda não tem uma resposta e ainda vai construir um discurso conjunto para apresentar. Mas, o fato é que a delação de Delcídio já era um fator de preocupação no Planalto, assim como uma possível delação do marqueteiro João Santana e sua mulher. Os discursos iniciais dos assessores palacianos são de que as afirmações são "sem consistência" e que "falta materialidade". Mas o governo sabe que tem de "medir as palavras" que vai usar para falar de Delcídio porque, até o ano passado, ele era o líder do governo no Senado, ou seja, representava o Planalto no Congresso. Além disso, tinha trânsito não só no Planalto, como no Alvorada, residência da presidente Dilma. 

Vários petistas também estavam presentes à cerimônia no Planalto na manhã desta quinta-feira e também se mostraram preocupados, mas tentando salientar que "se houve delação, ele tem de apresentar provas". Um deles lembrou que, quando Delcídio fala que se encontrou o ministro do STJ, Marcelo Navarro, no Planalto, para tratar da liberação de dois executivos da Odebrechet, esse encontro pode ser comprovado pelas câmeras do Palácio. Um dos ministros ouvidos pelo Estado salientou que Delcídio só falou da comprovação das câmeras porque sabe que as imagens são gravadas umas sobre as outras depois de algum tempo e que, neste momento, elas não existem mais.

Após a cerimônia do Planalto, o deputado Paulo Teixeira, por exemplo, declarou que "não são verdadeiras as afirmações de Delcídio". E emendou: "toda a atuação que Delcídio fez foi em benefício próprio e em interesse próprio". Para ele, "a presidente Dilma e o ex-presidente Lula não fariam pedidos com este conteúdo a ele". Outros petistas reconhecem que o fato de o partido ter "largado" Delcídio pode ter ajuda a deflagrar a ira do senador, que está "muito magoado".

O governo reconhece que este novo ingrediente da delação de Delcídio, que acabou se tornando uma "fera ferida", poderá prejudicar o processo de impeachment da presidente Dilma, que o governo tentava deixar em segundo plano, para se concentrar na pauta econômica em apreciação no Congresso. O fato é que este é mais um ingrediente para a crise que atinge a presidente Dilma e seu governo. O assunto é considerado grave porque o nome da presidente Dilma está sendo citado em uma delação de um preso na operação Lava Jato e um preso que tinha trânsito no Planalto, apesar de ser considerado "falastrão" pelo governo.

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