Supremo nega ter sofrido pressão para aceitar denúncia

Lewandowski pediu desculpas a colegas por ter dito em conversa que todos votaram 'com a faca no pescoço'

Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2031 | 00h00

Numa cena rara na história habitualmente comportada do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Ricardo Lewandowski viu-se obrigado ontem a pedir desculpas aos demais integrantes da instituição, por ter afirmado que, no julgamento da denúncia do mensalão, todos votaram "com a faca no pescoço". A frase levou a presidente do Supremo, Ellen Gracie, a distribuir nota no final da tarde, na qual afirma que o tribunal "não permite nem tolera que pressões externas interfiram em suas decisões".O ministro "estava muito constrangido, muito aborrecido", relatou um veterano da corte, Marco Aurélio Mello. "Se for verdade, é um pecadilho lamentável", prosseguiu, concluindo: "Fiquei perplexo. Um ministro só se curva à própria consciência".A avaliação de Lewandowski, que causou desconforto entre seus colegas de tribunal, foi manifestada numa conversa que ele teve anteontem com um amigo, pelo celular. Ele atendeu o telefone quando jantava em um restaurante de Brasília e suas opiniões foram ouvidas por uma repórter da Folha de S. Paulo. Ellen Gracie e ministros mais antigos do Supremo se apressaram a contornar o episódio - que foi logo aproveitado pelo principal réu do caso mensalão, o deputado cassado José Dirceu. Em entrevista, Dirceu afirmou que, a partir da declaração de Lewandowski, o tribunal estava sob suspeita (ver página seguinte)."Em hipótese alguma o Supremo está sob suspeição", rebateu logo o ministro Gilmar Mendes. "Uma característica forte deste tribunal é essa: não ceder à pressão. É da tradição republicana", completou.Além de Mendes, outros ministros comentaram o episódio ao longo do dia. "Está para nascer alguém que coloque a faca no meu pescoço", avisou o ministro Carlos Ayres Britto. ?HONORABILIDADE?Na nota que distribuiu em nome do tribunal, a presidente Ellen Gracie afirma: "O Supremo, que não permite nem tolera que pressões externas interfiram em suas decisões, vem reafirmar o que testemunham sua longa história e a opinião pública nacional, que são a dignidade da corte, a honorabilidade de seus ministros e a absoluta independência e transparência dos seus julgamentos". Acrescenta ainda que "os fatos, sobretudo os mais recentes, falam por si e dispensam maiores explicações".No entendimento de outros ministros com mais tempo de casa - Lewandowski foi nomeado recentemente, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, o problema é que ele não assume ter sido voto vencido - e isolado - em seu pedido para que não fosse aberto processo por formação de quadrilha contra Dirceu. "Ele está na cadeira errada", reagiu um deles. A uma pergunta se o telefonema de Lewandowski foi uma forma de tranqüilizar a própria consciência, por ter votado diferente dos colegas, Marco Aurélio ironizou: "Ainda não ocupo a cadeira de psicanalista. É foro íntimo."Já o ministro Eros Grau recorreu à ironia: disse que, por seu próprio tamanho, é difícil alguém colocar uma faca em seu pescoço. "Faz mais de cem anos que procedemos com integridade, dignidade, lucidez, transparência", afirmou depois, em tom mais sério. Grau confirmou ontem que pensa em interpelar Lewandowski, que o acusou, numa troca de mensagens eletrônicas, de negociar voto com o governo. "Admito que estou muito magoado", afirmou. FRASESCarlos Ayres BrittoMinistro do STF"Está para nascer alguém que coloque a faca no meu pescoço"Marco Aurélio MelloMinistro do STF"O ministro estava muito constrangido, muito aborrecido""Fiquei perplexo, um ministro só se curva à própria consciência"

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