Celso Júnior/AE
Celso Júnior/AE

Análise: Julgamento do mensalão invadiu o imaginário social

Ao longo do julgamento era possível presenciar uma montanha-russa de otimismo e pessimismo em relação aos rumos do País

Rubens Glezer, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2015 | 03h00

Por que o julgamento do mensalão chamou tanto a atenção da nação? Muitos dizem que esse fenômeno foi fruto de atenção exagerada da mídia, ou de um movimento político contra a subida e manutenção do PT na Presidência da República. Ainda que se considere corretos esses fatores, eles não são capazes de explicar, por si só, o grau de relevância que o julgamento assumiu no imaginário social e no dia a dia das pessoas. Como explicar máscaras de carnaval com rostos de ministros do STF ou conversas de boteco sobre o cabimento de embargos infringentes? O julgamento do mensalão foi importante para as pessoas porque comunicava - e comunica - aspectos cruciais do que vivenciamos e pensamos sobre política e democracia.

Ao longo do julgamento era possível presenciar uma montanha-russa de otimismo e pessimismo em relação aos rumos do País. Antes do julgamento, imperava a noção de que tudo acabaria na mais clássica pizza. Durante as sessões de votação, houve uma clara mudança na percepção pública: poderia ser o fim de uma era de impunidade aos poderosos da alta cúpula política e econômica. Porém, já com a fase de recursos, as mudanças na composição do Tribunal que geraram revisões importantes no julgamento e a decretação e cumprimento das penas, sobrou um sentimento de ambiguidade: será que superamos a cultura da impunidade dos poderosos? Será que políticos de outros partidos seriam punidos igualmente? A prisão em regime semiaberto é um resultado realmente importante?

Leia Também

Ecos do Mensalão

Esse mesmo ciclo de expectativas exageradas e um final ambíguo aparecem em outras partes da cena política brasileira. As manifestações de junho e a apropriação do mecanismo de protestos pelos mais diversos conjuntos sociais, com os mais distintos interesses e realizadas nas mais diferentes formas, também deixam hoje um espírito de incerteza. Algo muito semelhante pode ser dito sobre a relação com o Legislativo e o seu inquietante período de extraordinária atividade e votação sobre a reforma política. O que dizer então da Operação Lava Jato, com prisões de diretores de grandes empreiteiras, ocorrendo em torno da ambígua figura do juiz Sérgio Moro?

Em meio a tudo isso, a população precisa se apropriar de informações sobre lavagem de dinheiro, financiamento de campanha, sistema proporcional e distrital de eleição e outras questões que afetam os rumos da democracia.

Precisamos ser capazes de discutir o que é mais adequado para uma vida boa e uma sociedade plural e diversa, levando em conta a ação social e de todos os Poderes. Parece que a política (no melhor sentido) foi ressuscitada no cotidiano e o julgamento do mensalão fez parte desse processo. Porém, para essa política se manter viva, é preciso apreender com uma grande lição do mensalão: não é possível manter o tecido social se tomamos posições e discutimos à moda do que fizeram os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. Política não é Fla-Flu e precisamos ser melhores que isso em prol de uma sociedade democrática.

RUBEN GLEZER É PROFESSOR E COORDENADOR DO SUPREMO EM PAUTA DA FGV DIREITO SPP

Tudo o que sabemos sobre:
Mensalão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.