Suposta espionagem contra senadores reduz apoio a Renan

Governistas e oposição pedem a saída do senador da presidência da Casa; PSDB e DEM vão pedir quinta ação

Neri Vitor Eich,

09 de outubro de 2007 | 11h26

Além dos três processos que já correm no Conselho de Ética, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), enfrenta agora pressões de governistas e adversários para renunciar à presidência por ter articulado a destituição dos senadores peemedebistas 'rebeldes' Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e por ter, supostamente, mandado investigar senadores adversários.   Veja Também:Cronologia do caso  Entenda os processos contra Renan  Renan levanta dados sobre despesas de todos os senadoresPSDB e DEM preparam quinta representaçãoPMDB culpa Planalto por saída de Simon e Jarbas O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) informou nesta terça-feira, 9, que, assim que Renan assumir o comando dos trabalhos subirá à tribuna e fará um discurso apelando para que deixe a presidência da Casa. "Quero transmitir com toda a sinceridade a Renan que, em vez de ficar se explicando, o melhor é que se afaste da presidência e se dedique a fazer uma boa defesa para esclarecer todos os fatos", afirmou Suplicy.  Suplicy também criticou a atitude de Renan de ter procurado, em vez de se concentrar na defesa, descobrir o que os outros senadores fazem, para poder intimidá-los. "Isso está enfraquecendo a própria instituição", declarou Suplicy. O petista ainda irá fazer um apelo público ao líder do PMDB, Valdir Raupp, para que reconsidere a decisão de destituir da CCJ Simon e Jarbas. O senador Jefferson Peres (PDT) também defendeu nesta manhã, em entrevista à Rádio CBN, a saída de Renan da presidência da Casa. "O clima no Senado está irrespirável", disse. Peres negou que a pressão contra Renan seja um golpe contra o PMDB no Senado e afirmou tratar-se apenas de uma busca para a saída da crise que paralisa a Casa. "O presidente do Senado precisa ser um líder respeitado", disse, afirmando que Renan não tem, neste momento, este perfil. Quinta representação O PSDB e o DEM anunciaram que apresentarão nesta terça-feira ao Conselho de Ética uma nova representação (a quinta) contra Renan, por ter supostamente mobilizado um assessor - o ex-senador Francisco Escórcio - para espionar senadores adversários em Goiás - Demóstenes Torres e Marconi Perillo, ambos do DEM. Demóstenes Torres afirmou nesta manhã, ao jornal Bom Dia, Brasil, da TV Globo, que ouviu do empresário Pedrinho Abrão, de Goiânia, "com todas as letras", que Escórcio e dois advogados teriam armaram esquema de espionagem contra ele e Perillo. "Pediram para instalar câmaras no hangar que ele (Abrão) tem, a fim de nos flagrar", relatou Demóstenes. O objetivo da espionagem seria o de levantar supostas irregularidades dos dois senadores para pressioná-los a não votarem pela cassação de Renan. O ex-senador Francisco Escórcio negou, também em entrevista ao jornal, que tivesse praticado espionagem. Disse que esteve em Goiânia tratando de assuntos jurídicos de uma empresa e que teria encontrado Abrão por acaso. "Fiquei abismado com essa história (de espionagem). Essa história não é verídica, é fantasiosa." A uma pergunta sobre as razões pelas quais Abrão teria feito a denúncia sobre espionagem, Escórcio disse: "Não sei. Ele deve ter ficado louco."  'Rebeldes' da CCJ O presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer, condenou a atitude de Valdir Raupp de afastar da CCJ Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos. A ordem de afastamento está sendo atribuída a Renan Calheiros por serem os dois senadores favoráveis à cassação dele. "Acho que esse desalojamento não é adequado, é inadmissível", afirmou Temer, em declaração divulgada pela TV Globo. Já Raupp disse que afastou os dois senadores da CCJ porque eles não acompanham a orientação do partido. "Tenho humildade suficiente para voltar atrás em uma decisão. Desde que os senadores afastados da CCJ se alinhem com a bancada (do PMDB)", afirmou Raupp.  Diante do movimento suprapartidário em solidariedade aos dois senadores, os aliados de Renan resolveram atribuir ao Palácio do Planalto responsabilidade na operação de destituição. Ao mesmo tempo em que o PMDB governista e aliado de Renan puxa o Planalto para dentro da crise que rachou o partido, a oposição aproveita a situação e se articula com o PT para tirar do cargo o presidente do Senado. "É fácil para eles, da oposição, jogar tudo nas costas do Renan, mas o Planalto não tem menos interesse do que ele em substituir os dois senadores. Afinal, a CCJ é uma comissão estratégica, por onde passam todos os interesses do governo", declarou o senador Gilvan Borges (PMDB-AP). "Esta medida foi tomada pelo presidente da Casa, que tem levado o Senado à sarjeta. É o Senado que está sendo atingido, não os dois senadores do PMDB", protestou Jarbas na segunda-feira. Indignados com as destituições, os independentes do PMDB marcaram para esta terça-feira uma reunião da bancada, com o objetivo de reverter os afastamentos. Além disso, deputados planejam para esta noite um jantar de desagravo.  Investigação de gastos A direção do Senado produziu nos últimos meses um raio X dos gastos oficiais de todos os senadores. O dossiê começou a ser feito após as primeiras denúncias contra Renan Calheiros no Conselho de Ética. O diretor-geral do Senado, Agaciel da Silva Maia, pediu à Secretaria de Controle Interno uma cópia, em papel, da prestação de contas da verba indenizatória de todos os 81 senadores. Na papelada, estão as despesas feitas pelos parlamentares e as respectivas notas que, pelo menos em tese, comprovam como o dinheiro foi gasto. A verba indenizatória, de R$ 15 mil, é mensal, mas a explicação para os gastos é entregue a cada três meses. O movimento do diretor-geral fez parte de uma série de ações organizadas por Renan para intimidar os colegas que ameaçam votar a favor de sua cassação. As informações obtidas por Agaciel serviriam como munição porque, em muitos casos, as notas apresentadas seriam frias, indicariam gastos incompatíveis ou inapropriados. Nas mãos de Renan e de sua tropa de choque, o rol de supostas irregularidades representaria o aumento de poder de barganha e intimidação perante os senadores flagrados em deslizes. A produção do dossiê foi confirmada ao Estado na segunda-feira por três pessoas. Elas contaram que Agaciel teria agido a mando de Renan. Da Espanha, o diretor-geral telefonou na segunda para um funcionário da secretaria, que seria amigo do senador Demóstenes Torres, para saber se o parlamentar havia dito algo especial. Ao todo, Renan já levantou suspeitas sobre dez colegas. São alvos de Renan: José Agripino Maia (DEM-RN), Tião Viana (PT-AC), Pedro Simon (PMDB-RS), Ideli Salvatti (PT-SC), Jefferson Péres (PDT-AM), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Aloizio Mercadante (PT-SP), Serys Slhessarenko (PT-MT), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Marconi Perillo (PSDB-GO).  Como se tivesse um serviço particular de inteligência, Renan recolheu contra cada um deles indícios - verdadeiros ou não - de irregularidades para constrangê-los. No PT, a desconfiança é de que ele esteja sendo orientado e aconselhado pelo deputado Jader Barbalho (PMDB-PA). Jader já foi presidente do Senado e renunciou ao mandato para escapar de cassação. (Com Christiane Samarco, Cida Fontes, Expedito Filho e Ana Paula Scinocca) 

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