Suplicy ''interage'' com ministra e desiste de propor prévias

Apoio de Dilma para renda mínima conquista senador

Vera Rosa e Tânia Monteiro, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Vinte e seis dias após cantar Blowin? in the Wind, de Bob Dylan, para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, num jantar de fim de ano, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) disse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que desistiu de reivindicar prévias no PT para a escolha do candidato à sucessão no Palácio do Planalto, em 2010. "Estou interagindo com Dilma", avisou ele a Lula, dentro do avião, na volta de São Paulo para Brasília, há uma semana. A conversa ocorreu por volta de 15h30, com a própria Dilma e o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, como testemunhas. Famintos, sem almoço, todos devoravam um prato de salada quando Suplicy - que sempre quis ser presidente e chegou a disputar prévia com o próprio Lula, em 2002 - prometeu apoiar Dilma. "Quero ajudá-la na transição do Bolsa-Família para o Renda Básica de Cidadania e também na montagem do Fundo de Responsabilidade Social, que vai aplicar recursos do pré-sal para erradicar a pobreza", informou o senador. "Ela gostou da minha ideia e, se vai adotá-la, não é necessário que eu seja o candidato." Empolgado, Suplicy falava sem parar sobre a obsessão de sua vida - o projeto de garantia de renda mínima - quando Lula o interrompeu. Motivo: havia chegado o prato principal, composto de carne-de-sol e feijão-fradinho, e o senador ainda estava na salada. "Eu não entendo como uma pessoa, tendo à sua frente um prato tão apetitoso, fica falando sem parar e não come", disse Lula. "Vamos comer, Eduardo!", ordenou o presidente. Dilma abriu um sorriso. Sua plástica no rosto foi elogiada pelos comensais. Terminada a refeição, Suplicy retomou seu tema predileto. Sem confirmar que Dilma será candidata, Lula admitiu que não quer prévias no PT, em 2010. Alegou que só conseguirá agregar a base aliada do governo em torno de uma candidatura se o PT estiver unido. "Nós precisamos conversar para fora, e não brigar para dentro. Vamos para uma eleição difícil e não podemos menosprezar o adversário", insistiu o presidente, numa referência ao governador José Serra, provável candidato do PSDB. Para Lula, a convocação de prévias para escolha de candidatos é "um grave erro" porque sempre deixa sequelas. Citou como exemplo derrotas históricas sofridas pelo PT após duros confrontos entre petistas, como a disputa entre os gaúchos Olívio Dutra e Tarso Genro, que levou o partido a perder o governo do Rio Grande do Sul, em 2002."Eu também enfrentei você numa prévia, em 2002, e não houve divisão no PT", retrucou Suplicy. "Não houve porque eu não topei os debates que você queria. Se fizéssemos aqueles debates, a imprensa certamente encontraria divergências", devolveu Lula. Árduo defensor do voto direto entre filiados para a definição do candidato, Suplicy não se deu por vencido e citou até mesmo as prévias entre Barack Obama e Hillary Clinton, nos EUA. "Eles fizeram 22 debates. Não é regra que uma prévia possa contribuir para dividir o partido", discordou o senador. Suplicy garantiu que muitos eleitores pedem o lançamento de sua candidatura à sucessão de Lula. "No fim de semana passado, ao caminhar no Parque Ibirapuera, pelo menos oito pessoas vieram falar comigo sobre isso", contou. Mesmo diante de tantos pedidos, disse não estar disposto a desafiar Dilma. Ficou encantado com a atenção que a chefe da Casa Civil deu a seu projeto de renda mínima, numa conversa a portas fechadas no gabinete dela, em junho. Depois disso, os dois trocaram ideias num jantar organizado por senadores, perto do Natal. "Até cantei Blowin? in the Wind em homenagem a ela, presidente!", relatou Suplicy, numa alusão a seu hit favorito. A ministra não disse palavra. "É bom mesmo que a gente não brigue entre nós, Eduardo! Senão, partidos como o PMDB seguem seu rumo e nós ficamos a ver navios", constatou Lula, que pretende reservar a vaga de vice de Dilma para o PMDB. De preferência, para alguém do Nordeste do ministro Geddel Vieira Lima.

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