''Sufocado como artista'', Gil deixa ministério

Ele também reclamou que os recursos da Cultura não chegam a 1% do Orçamento da União; o secretário-executivo, Juca Ferreira, deve assumir

Leonencio Nossa e Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

31 Julho 2008 | 00h00

Sem esconder o alívio, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou na noite de ontem, em Brasília, a saída do cargo. Após encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, ele confidenciou que se sentia sufocado como artista e reclamou que os recursos da pasta não chegam a 1% do Orçamento da União, como recomenda a Unesco. "No governo a gente sufoca um pouco a inspiração, não tem tempo para ela", disse ao Estado. Leia o perfil de Gil e relembre sua gestão no ministério Enquete: Gilberto Gil fez um bom trabalho no ministério? Foi a terceira vez que ele pediu ao presidente para deixar a pasta. Gil relatou em entrevista coletiva que, no encontro de ontem, Lula estava mais sensível e avaliou que não teria problemas políticos com a saída do cantor do cargo. O presidente, antes de se despedir e desejar boa sorte ao artista, fez um longo relato sobre agricultura familiar e biocombustíveis, segundo o próprio ministro. Por isso, Gil disse que Refazenda era a música mais apropriada para o momento de saída do governo. "Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão", lembrou o trecho da música que fala de um abacateiro, metáfora da árvore da vida. "É uma música que fala das plagas do planalto central, se quiserem podem usar como jingle." Quem deve assumir o Ministério da Cultura é o atual secretário-executivo da pasta, Juca Ferreira, que já está interinamente na função. Ferreira poderá assumir em definitivo o cargo no próximo mês, após viagem de Lula à China. Gilberto Gil fazia parte de um seleto grupo de apenas quatro ministros no mesmo cargo desde janeiro de 2003, quando Lula tomou posse para cumprir seu primeiro mandato. Os demais são Celso Amorim (Relações Exteriores), Jorge Félix (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência). FAMÍLIA Uma temporada recente de shows na Europa e nos Estados Unidos levou Gil a voltar a pedir a Lula o afastamento. "Eu disse ao presidente que o jogo estava de dois a zero para ele", contou. "Hoje (ontem) fiz um gol e saí ganhando." Na entrevista, Gil disse que não saía do governo para atender ao aumento da demanda de shows, mas para dar mais atenção à família. Ele, no entanto, admitiu "pressões" por conta da agenda de artista. O ministro lembrou ter sido criticado por acumular o cargo com a carreira de músico. Neste ano, ele tirou férias de 30 dias e conseguiu licença de 40 dias para fazer apresentações. "Não me incomodavam muito as críticas, pois não me sentia responsável por atitudes negativas", afirmou. "Houve sinergia entre o trabalho do artista e do ministro." Ele calculou ter dedicado 80% do tempo para os trabalhos de ministro e 20% para a música. "A balança tendia a pender mais para a atividade artística, e aí resolvi sair", disse. "O presidente entendeu isso e me liberou", completou. Gil disse ter tomado novamente a decisão de deixar o governo no último dia 27. Agora, o artista pretende se dedicar ao seu mais novo disco, Banda Larga. CORDAS VOCAIS Pela manhã, no Rio, Gil discursou na abertura do Fórum Nacional de Direito Autoral, um tema que lhe é bastante caro. A voz, que vem falhando por conta de danos nas cordas vocais, provocados pela rotina de ministro acrescentada à de cantor, não foi poupada para defender, com ardor, a necessidade de revisão da Lei 9.610, de 1998, que dispõe sobre o assunto. "Ou a sociedade brasileira discute isso ou daqui a dez anos estaremos fora do bonde da história", afirmou, para, em seguida, admitir: "Se minha fonoaudióloga me ouvisse, talvez me repreendesse." Uma das mudanças na legislação propostas pelo ministério é a proibição da cessão total dos direitos do autor. Essa seria uma forma de proteger o criador na hora de ele negociar a transferência de direito de exploração econômica de sua obra.

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