Sucessão no Rio esbarra em líderes enfraquecidos e crise do PMDB

Para reforçar indefinição no início do ano eleitoral, há pelo menos dez pré-candidaturas em articulação

Wilson Tosta e Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

04 de fevereiro de 2008 | 00h00

Com os seus principais líderes desgastados por crises, o partido que controla a máquina estadual dividido e mais de dez pré-candidaturas em articulação, o Rio apresenta hoje um quadro político fragmentado na disputa da prefeitura da capital. A confusão é reconhecida por cientistas políticos entrevistados pelo Estado, que apontam o PMDB - na posição do governador Sérgio Cabral Filho e na ainda incerta candidatura a prefeito do secretário estadual de Esportes, Eduardo Paes - como fator decisivo para o rumo da corrida municipal. A complexidade é reforçada pela liderança nas pesquisas do apresentador e deputado Wagner Montes (PDT), locutor de perfil popular e discurso focado na segurança pública, na exaltação da polícia e do confronto com marginais.A confusão do quadro começa pelo prefeito Cesar Maia (DEM), que não pode concorrer à reeleição, não tem candidato forte à sucessão e cuja administração é alvo de uma forte campanha de um setor da classe média, que prega o adiamento do pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para depois da eleição. O movimento é um protesto contra o abandono de ruas e praças, em muitos casos tomadas por população de rua, camelôs e sujeira, e a má qualidade dos serviços públicos, como o de saúde.O ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) vive agudo desgaste após o governo da mulher, Rosinha Garotinho (PMDB), que agravou a resistência dos cariocas à sua liderança. Além disso, Cabral prepara-se para disputar com ele a indicação do PMDB à prefeitura: o governador defende Paes, mas Garotinho quer apoiar Solange Amaral (DEM), candidata preferida de Maia."O quadro realmente está muito fragmentado", destaca o cientista político Geraldo Tadeu Moreira, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS). "São 15 ou 16 pré-candidatos de diferentes partidos, sendo 7 ou 8 mais fortes."SEMELHANÇASO panorama lembra outra eleição carioca. Em 1992, uma crise de lideranças, divisões no partido hegemônico e a fragmentação de candidaturas criaram o ambiente em que cresceram duas candidaturas inicialmente inexpressivas: Benedita da Silva (PT) e Cesar Maia, à época no PMDB.O governo estadual, de Leonel Brizola (PDT), vivia uma crise de credibilidade, causada, entre outros motivos, pelo crescimento da violência. O PDT se dividiu: o prefeito Marcello Alencar não conseguiu emplacar como candidato o secretário Luiz Paulo Corrêa da Rocha, porque Brizola impôs como candidata uma apresentadora de perfil popular, Cidinha Campos. Inicialmente líder, ela ficou em terceiro."A única semelhança com 92 é o início de um novo ciclo político, o que vale para o Brasil, não apenas para o Rio", diz Maia, rejeitando a comparação. "Em 1992, Alencar tinha enorme prestígio. O erro foi não ter sido ele o centro da escolha do candidato."O prefeito não reconhece estar em crise, apesar de ter se aliado ao ex-rival Garotinho, por meio de um acordo em que o peemedebista apóia Solange na capital e o DEM sustenta o PMDB nos demais municípios. Em 2006, diante da aproximação do candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, do peemedebista, Maia debochou: "Só otário ainda acredita em Garotinho."Para o cientista político Carlos Eduardo Sarmento, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o quadro é muito mais confuso que aquele de 16 anos atrás: "Em 92, só uma força estava desconstruída, o brizolismo."PESQUISASSegundo Moreira, os números do IBPS mostram que a disputa de 2008 está estabilizada como em uma maratona. Um "queniano" - Montes - está disparado na frente, com mais de 20%, diz; há um segundo pelotão de candidatos, na faixa de 10% das preferências, formado pelo senador Marcelo Crivella (PRB), Denise Frossard (PPS), Eduardo Paes (PMDB) e Jandira Feghali (PC do B). Um terceiro pelotão, com concorrentes com 5% ou 6% das intenções de voto, é integrado por Solange Amaral (DEM), Chico Alencar (PSOL) e Fernando Gabeira (PV). Depois, vêm os retardatários, cujas candidaturas têm em torno de 1%, como Edson Santos e Alessandro Molon (PT)."Nos três pelotões, há somados mais ou menos oito candidatos com 65% dos votos", explica. "É um quadro muito mais fragmentado que São Paulo, onde a disputa está entre Geraldo Alckmin (PSDB), Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM). E quando tiramos o Wagner Montes da cartela, o quadro muda radicalmente: cresce o número de indecisos e alguns candidatos."

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