Sucessão em São Paulo pode aliar Kassab a petistas

No PMDB, prefeito poderia alternar poder com seus ex-adversários em 2012 e 2014

Julia Duailibi e Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 17h43

As negociações para uma eventual troca de partido do prefeito paulistano Gilberto Kassab (DEM) começaram a alimentar articulações para unir no mesmo projeto político petistas e kassabistas em 2012 e 2014, de modo que haja um "revezamento" eleitoral nas próximas eleições. A ida de Kassab para um partido da base da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) animou petistas, que viram na provável dança de cadeiras a chance de enfraquecer os adversários tucanos em São Paulo, Estado que é reduto do PSDB há 16 anos e tem a maior capital do País, com 8,4 milhões de eleitores.

 

O projeto, se confirmado, tornaria o prefeito paulista uma liderança híbrida: se beneficiaria da boa vontade do governo federal, com recursos para os seus pleitos, e, por enquanto, da aliança do PMDB com o PSDB na esfera estadual. Aumentando, portanto, o cacife para discutir o seu futuro eleitoral, o que, no DEM, tem valido menos cada dia que passa.

 

Na última semana, o prefeito paulistano intensificou as conversas com o PMDB, por meio do presidente da legenda e vice-presidente eleito, Michel Temer. Com a possibilidade de Kassab ingressar em um partido aliado ao PT no plano federal - as conversas chegaram ao PSB também -, petistas e peemedebistas passaram a cogitar uma aliança que passe pela eleição municipal, em 2012, e a estadual, em 2014.

 

Não podendo mais concorrer a uma segunda reeleição para a prefeitura paulistana, o projeto político de Kassab passa necessariamente pelo Palácio dos Bandeirantes em 2014. Para viabilizar esse plano, Kassab precisa controlar uma legenda forte no Estado, com verbas, tempo de TV e que não sirva de apêndice aos projetos do PSDB, que tem como caminho natural lançar Geraldo Alckmin à reeleição.

 

O PMDB paulista serviria a esse propósito. Com a liderança de Orestes Quércia enfraquecida por questões de saúde, o partido tende a passar por um rearranjo de poder em torno de Temer, que, com uma legenda raquítica em São Paulo, concederia a Kassab a liderança para reestruturar o partido no Estado. O PMDB paulista se enfraqueceu tanto regionalmente que só conseguiu fazer um deputado federal na última eleição.

 

Petistas e peemedebistas dizem que a ida de Kassab para a legenda daria novo gás na discussão de uma aliança entre os dois partidos, de modo a isolar os tucanos. Em 2014, o prefeito poderia contar com o apoio dos adversários históricos no PT para disputar o Palácio dos Bandeirantes. A contrapartida seria o apoio ao PT na disputa pela prefeitura paulistana daqui a dois anos - ou o compromisso de que a candidatura do PMDB seria "de fachada". Na prática, isso significaria o apoio de Kassab a um candidato pouco competitivo.

 

O principal atingido pelas articulações de Kassab é Geraldo Alckmin, com quem o prefeito mantém uma relação, no mínimo, distante. O governador eleito, que pretende dar as cartas no processo de sucessão na Prefeitura de São Paulo em 2012, perderia um importante aliado - e precioso tempo de TV - num cenário em que busque a reeleição. Além disso, teria de disputar em 2014 com um concorrente forte, num cenário de fadiga do PSDB, que estaria completando 20 anos de governo no Estado.

 

"Uma aliança com o PMDB de São Paulo em 2012 seria muito boa. Kassab pode se tornar um grande aliado, o que seria bom para o PT, que sabe que precisa ampliar sua política de aliança no Estado", afirmou um líder petista, destacando que a "fidelidade" de Kassab é com José Serra e não com Geraldo Alckmin, e que "o projeto de Alckmin não é o mesmo do de Serra".

 

Fusão. Desde o começo do ano, Kassab já mantinha conversas com líderes de outros partidos, inclusive do PSDB, sobre a incorporação do DEM a outras legendas. O prefeito considerava natural a fusão entre o seu partido e tucanos, principalmente em razão da boa relação que tem com Serra. Mas empecilhos regionais, como a Bahia, onde as legendas disputam espaço, inviabilizaram um acordo.

 

Enquanto Kassab articula seu futuro político, o DEM trabalha para mantê-lo na sigla. O problema é que talvez isso já não seja mais possível politicamente. O ex-senador Jorge Bornhausen (DEM-SC) colocou em campo uma operação para alterar o comando nacional da legenda e manter o prefeito paulista nas hostes democratas. Só que hoje essa articulação é de difícil execução, uma vez que o atual presidente do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ), tem o apoio de diretórios influentes, como Rio, Bahia, Minas Gerais e Goiás.

 

O DEM vem perdendo espaço e encolhendo a cada eleição, e a saída de Kassab, prefeito da maior cidade do País, jogaria a legenda ainda mais no ostracismo. O prefeito paulistano enfrenta uma queda-de-braço com essa ala do partido encabeçada por Rodrigo Maia. Os dois se desentendem há algum tempo e o desgaste atingiu o seu ápice no final do primeiro semestre, durante as negociações para a escolha do vice-presidente na chapa do tucano Serra.

 

Uma saída articulada pelos que querem manter Kassab no partido seria destituir Rodrigo Maia da direção, concedendo ao prefeito o controle nacional da legenda. Mas, além de ter o controle da maior parte do DEM, Maia conseguiu angariar apoio de caciques que são contra a tese de fusão defendida por Kassab - uma fusão tiraria do DEM recursos do fundo partidário e estrutura como lideranças no Congresso, além de abrir brecha jurídica para uma debandada no partido.

 

Se a operação articulada por Bornhausen não tiver sucesso, restará mesmo a mudança de partido para Kassab. E, com isso, a mudança no xadrez eleitoral paulista.

Tudo o que sabemos sobre:
SucessãoSPKassabPT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.