Sucessão de erros esvazia Ministério da Defesa

Sete anos depois de criado, o Ministério da Defesa se parece cada vez mais com uma idéia que não deu certo. Na prática, as três Forças Armadas continuam a funcionar de maneira independente e os militares nunca se sentiram representados - nem liderados - por um único ministro civil. Os especialistas no assunto aprovam a existência do ministério, porém avaliam que o projeto tem sido prejudicado pela escalação de nomes inadequados para chefiá-lo, equívoco iniciado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e repetido no governo Lula. "Sem exceção, todos os ministros escolhidos, seja por Fernando Henrique, seja por Lula, foram medíocres e incapazes de dirigir as Forças Armadas", diz o coronel Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A crise que abala o setor aéreo exibe de forma exemplar a falta de entrosamento entre o atual ministro da Defesa, Waldir Pires, e os comandantes militares. Cavagnari avalia que Pires cometeu um erro imperdoável no início da crise dos aeroportos, ao abrir negociações diretas com os controladores de vôo - em sua maioria, sargentos da Aeronáutica. "Ele não poderia ter feito isso. Passou por cima de seus comandantes, quebrou a hierarquia. Isso vai se voltar contra ele. Quem quebra a hierarquia uma hora tem o troco", diz. O ministro alega que não houve subversão de hierarquia, pois só procurou os controladores após conversar com o comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno. Perfil Neutro Na opinião dos militares, pesa contra Pires o fato de ele ser um político. Ex-deputado e ex-governador da Bahia, tem uma história de militância de esquerda e chegou a ser exilado durante o regime militar. Ex-integrante do PMDB e do PDT, é filiado hoje ao PT. O general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete de Segurança Institucional durante os oito anos do governo FHC, prefere não avaliar o caso específico de Pires, mas defende que o ministro da Defesa precisa ter um perfil politicamente neutro. "Ele não pode ter a cara do governo, tem de ser um estadista", opina. A idéia por trás do Ministério da Defesa é a de que Exército, Marinha e Aeronáutica precisam atuar sob uma mesma coordenação, com objetivos estratégicos baseados em diretrizes comuns. "O ministro não é o comandante das Forças Armadas, mas tem a missão de coordená-las", diz Cardoso. "O chefe é o presidente da República. O artigo 84 da Constituição não permite que ele delegue o comando das Forças Armadas a ninguém, nem mesmo ao ministro da Defesa." O conceito de um Ministério da Defesa com funções de coordenação dos militares é uma evolução em relação ao modelo anteriormente adotado no Brasil, em que cada Força tinha status de ministério e agia sem grande entrosamento com as demais. Vários países, como os EUA, adotam o modelo que o Brasil tenta implantar.

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