Subtipo C do HIV exige mais estudos, diz Ministério

O Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids) do Ministério da Saúde está preocupado com a divulgação antecipada de dados sobre uma pesquisa que vem detectando um aumento da presença do vírus HIV subtipo C, no Sul do Brasil. "Embora o estudo tenha identificado maior prevalência do subtipo C na Região Sul do País, novos estudos serão necessários para definir o verdadeiro impacto desse resultado nos pacientes infectados por essa variante de HIV", afirma o DST/Aids.A pesquisa sobre os tipos de HIV presentes no Brasil vem sendo realizada por sete centros de pesquisa ligados à UFRJ, Unifesp, Instituto Adolfo Lutz, Instituto Biológico do Exército, Fiocruz e Hospital Pedro Ernesto (UERJ), sob coordenação do Ministério da Saúde. Segundo o DST/Aids, o Ministério da Saúde dispõe de 15 anti-retrovirais distribuídos em três classes de medicamentos, suficientes para tratar todos os subtipo de HIV existentes no País. Segundo a pesquisa, os 7% de infectados que possuem vírus resistentes a algum tipo de medicamento podem usar variações do coquetel.A descoberta da variedade C no Brasil muda o mapa do HIV no mundo. Um mapa sobre os subtipos do vírus feito pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids em 2001 mostra que o subtipo encontrado nas Américas é a variedade B, enquanto o subtipo C ataca a costa Leste-Sul (África do Sul), Leste-Norte e uma pequena parcela da costa Noroeste da África. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, porém, não há qualquer demonstração científica mundial de que o subtipo C seja mais agressivo do que os demais já identificados : A, B, D, E, e outros sobre os quais se sabe muito pouco.ResistênciaEm relação à resistência dos vírus encontrada em pacientes brasileiros, o estudo do Ministério da Saúde em parceria com os centros de pesquisa revela que 23 dos 366 pacientes pesquisados (7%) possuem o vírus com algum grau de resistência, sendo que na metade desses doentes o grau de resistência é considerado baixo. O DST/Aids informa ainda que tal índice é considerado baixo se comparado com os de outros países: nos Estados Unidos o grau de resistência é de 29%, na Espanha 26%, na França 17%, na Inglaterra 14%, na Alemanha 13% e na Suíça 10%. Acontece que esses casos dizem respeito a pacientes contaminados com o subtipo B e não com o C."Para que os resultados possam ter relevância estatística em um país com as dimensões continentais do Brasil é sem dúvida necessário que haja análise de um contingente significativamente maior de indivíduos antes que conclusões sejam extrapoladas", afirma o médico infectologista e professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Vicente Amato Neto. Ele acrescenta que até hoje não se conhece se as variações genéticas interferem no risco de transmissão, na resposta ao tratamento anti-retroviral ou na prevenção vacinal. Ou seja, não haveria ainda motivos para alarde sobre o novo subtipo que invade o País, por falta de informações - embora o vírus já predomine na maior parte da África.VacinaQuanto à discussão sobre a ocorrência de pesquisas e desenvolvimento para combate à Aids nas diversas regiões do mundo, segundo a qual os países do Primeiro Mundo são privilegiados com maior rapidez e interesse dos laboratórios do que os pobres, nem tudo é verdade.Embora a África subsaariana ostente todos os recordes ruins da doença no mundo - 28,1 milhões de infectados, 3,4 milhões de recém-infectados e 2,3 milhões de óbitos em 2001 - e no mesmo período Europa Ocidental e Estados Unidos juntos registraram 1,5 milhão de infectados, 75 mil recém-infectados e 26.800 vítimas fatais da doença, há luz no final do túnel para ambas regiões, pobres e ricas, mostram os pesquisadores.Além das pesquisas sobre vacinas para prevenir a Aids nas Américas e na Europa, será colocada em teste a primeira vacina contra o subtipo C até o final deste ano, em Botsuana, África, informou o pesquisador da Escola de Saúde Pública de Harvard (EUA), Max Essex, à publicação Scientific American Brazil (setembro 2002). Mas toda essa força-tarefa em busca do atual "santo graal" da medicina poderá ser vã ante a rapidez com que ocorrem as mutações do HIV.Atualmente são conhecidos dois tipo de HIV: o 1, predominante no mundo, e o 2, inicialmente encontrado no oeste da África, e que hoje infecta também um número substancial de indivíduos em França, Moçambique, Cuba e Portugal. O HIV 1 é subdividido em três grupos: M, N e O. Nos últimos dez anos, foram identificados 10 subtipos só no grupo M, e denominados por letras de A a J. Geneticamente distintos, esses subtipos são erraticamente distribuídos ao redor do mundo, explica Vicente Amato Neto.Segundo ele, espera-se que novos subtipos surjam nos próximos anos devido à mutações e à disseminação de subtipos já conhecidos para novas áreas do globo, conforme ocorra progressão da epidemia. Além disso, diz o professor, são documentadas infecções por mais de um subtipo em um mesmo indivíduo."Embora as diferenças entre os subtipos estejam associadas a taxas de multiplicação e características imunológicas distintas in vitro (em laboratório, fora do organismo do paciente), são necessários estudos para verificar se o mesmo ocorre in vivo (no organismo do paciente). Se, de fato, estas diferenças interferirem na eficácia vacinal, com certeza representarão um relevante obstáculo no desenvolvimento de uma vacina contra o HIV amplamente aplicável na população mundial?.

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