STF volta à era do rádio, em busca de modernidade

Emissora do Supremo recorre a radionovelas para conquistar público

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2008 | 00h00

Exceto quando tratam de um tema da grandiosidade do julgamento do escândalo do mensalão, as sessões do Supremo Tribunal Federal (STF) costumam ser arrastadas, capazes de provocar sonolência até nos advogados envolvidos nas causas ali julgadas. A TV e a Rádio Justiça transmitem todas as sessões ao vivo. Seus dirigentes sabem que o público espectador e ouvinte é especialíssimo, pequeno mesmo.A rádio, no entanto, quer espantar a chatice e alcançar maior número de ouvintes. Para isso, foi buscar no passado, na velha radionovela, a fórmula para conquistar outros segmentos de público, além daquele formado na sua maioria absoluta por advogados. Na última semana de agosto, quando o Brasil todo acompanhava a parte final do julgamento em que o STF decidiu processar 40 políticos, empresários e administradores públicos pelo escândalo do mensalão - entre eles, toda a antiga cúpula do PT e ex-ministros como José Dirceu, Luiz Gushiken e Anderson Adauto -, a Rádio Justiça aproveitou os intervalos da sessão para levar ao ar uma radionovela que tratava de uma confusão entre os participantes de um bolão da Loteria Esportiva. A novela foi transmitida oito vezes ao dia, de segunda a sexta-feira.A confusão que envolveu os personagens Natércio, Gomide e Argemiro na radionovela intitulada Bola Fora baseou-se em fato real, que quase chegou à Justiça. Foi premonitório, visto que na quinta-feira o marceneiro Flávio Júnior Biass acusou o chefe de ter se apropriado indevidamente do bilhete premiado da Mega Sena de R$ 27,7 milhões pagos por uma aposta feita na cidade de Joaçaba, em Santa Catarina. O prêmio foi bloqueado por ordem do juiz Edemar Gruber, da cidade.CASA DA SUPLICAÇÃOAté agora, a Rádio Justiça já exibiu três radionovelas. A primeira foi uma homenagem ao antigo Supremo Tribunal Federal, chamado durante seu início de Casa da Suplicação. Depois, tratou do caso do fazendeiro Manuel da Mota Coqueiro, de Macaé, condenado à morte por enforcamento no fim do século 19 sob acusação de ter mandato assassinar Francisco Beneditino, sua mulher e seis filhos. Descobriu-se depois que Coqueiro não fora o mandante. Esse episódio, narrado por José do Patrocínio em Mota Coqueiro ou a Pena de Morte (1887) foi fundamental para que o imperador Pedro II abolisse a pena de morte.O roteiro das radionovelas é feito pelo jornalista Guilherme Macedo, que também é um dos atores. "Dou um tratamento dramático a fatos que tiveram repercussão na Justiça. Faço uma pesquisa sobre temas e depois os dramatizo", disse Macedo. "A expectativa é fazer com que a programação da TV Justiça se torne mais popular." Os atores são repórteres, editores, locutores e técnicos da TV e da rádio, convidados e ensaiados conforme os perfis dos personagens.Viviane Yanagui, uma das produtoras da peça, e também atriz, informou que o projeto das radionovelas foi gestado com o surgimento da Rádio Justiça, em 2004. Mas elas só começaram a ser produzidas recentemente. Com a inauguração da nova freqüência da rádio, em Brasília (104,7 FM), houve uma reformulação em todos os programas."Hoje temos muito mais jornalismo, sete programas culturais - não tínhamos nenhum -, e estamos prestes a lançar dois programas de cidadania: o Comunidade, transmitido de locais como fóruns e praças públicas, e o Direito Direto."VERDE-OLIVAEm Brasília é comum a maioria das instituições ter sua TV e sua rádio. O Senado e a Câmara têm os dois tipos de emissoras; a Câmara Distrital tem sua TV; o Judiciário tem sua rádio e sua TV.O Exército tem desde 2000 a Rádio Verde-Oliva, que faz uma programação jornalística, cultural e musical. Na parte musical predomina a MPB.Personagens que foram perseguidos durante a ditadura militar (1964-1985) são os mais assíduos na rádio do Exército, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e até Geraldo Vandré.

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