Stedile vê ''''contra-reforma agrária'''' no País

Para dirigente do MST, concentração de propriedade aumentou no governo Lula, que não mostrou avanços

Roldão Arruda e Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Após seis anos de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não cumpriu sua promessa de pôr em andamento uma ampla reforma agrária. Pelo contrário, houve um retrocesso: a propriedade da terra ficou mais concentrada no seu governo.Essa é a opinião de João Pedro Stedile, ideólogo e dirigente do Movimento dos Sem-Terra (MST) e amigo de Lula, a quem apoiou em todas as campanhas eleitorais.Em entrevista ao Estado, transmitida ao vivo pela TV Estadão na internet, na quinta-feira, o dirigente do MST voltou a defender as invasões de terras e disse que qualquer propriedade com mais de mil hectares está sob suspeição. A seguir, os principais trechos da entrevista - que pode ser vista na íntegra no site www.estadao.com.br.INVASÃO DE FAZENDAS"A terra é um bem da natureza. Não é fruto do trabalho de ninguém. Eu duvido que algum fazendeiro com mais de mil hectares prove que comprou aquela terra pelo seu trabalho, porque isso é impossível. Todas as grandes propriedades do Brasil não foram originárias do trabalho. Ou são apropriação de terra pública, ou grilagem, ou compra fajuta ou expulsão de posseiro."PROPRIEDADE"A terra deve ser de todos, não do capitalista. Não é uma propriedade absoluta. A Constituição brasileira estabelece que pesa sobre a terra uma função social, que é a produção de alimentos, a garantia de trabalho, o respeito ao meio ambiente. Ninguém pode fazer o que quiser com a terra - porque ela pertence à sociedade."GOVERNO LULA"Os movimentos sociais e a esquerda brasileira passaram 20 anos idealizando que bastava o Lula chegar ao poder para que os problemas fossem resolvidos. Assumo a autocrítica. Fiz parte dessa geração que se iludiu. Agora caiu a ficha. Não basta o homem nem o partido. Para que um governo seja popular é necessário que as forças organizadas do povo exerçam pressão sobre o Estado e exerçam o governo de fato."REFORMA AGRÁRIA"Nesse campo o governo Lula não avançou nada. Porque reforma agrária acontece quando são tomadas medidas de Estado que democratizem a propriedade da terra. Temos dados que mostram o contrário: nos últimos seis anos aumentou a concentração da propriedade agrária. O que está em curso no Brasil é uma contra-reforma."ENCONTRO COM LULA"Ele nos ouviu durante duas horas e no final disse que iria encaminhar nossas reclamações aos ministros. Eu disse a ele para tomar cuidado com o milho transgênico, que só interessa à Monsanto e à Bayer. Se aprovar, eu disse, você vai entrar para a história como puxa-saco das multinacionais."ASSENTAMENTOS"Existem alguns assentamentos que nos envergonham. Mas na grande maioria ninguém mais passa fome, todo mundo tem escola, há trabalho para todos."

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