Stédile é indiciado como ´mentor´ da destruição na Aracruz

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul indiciou o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, como mentor da destruição de um laboratório e um viveiro de mudas da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, a 56 quilômetros de Porto Alegre. Também foram apontadas outras 36 pessoas como participantes do planejamento ou da liderança da execução do ataque, feito no dia 8 de março por quase duas mil mulheres identificadas como militantes da Via Campesina. Elas são acusadas de crimes como dano qualificado e cárcere privado.Entre os acusados estão os líderes internacionais da Via Campesina Paul Nicholson (País Basco) e Henri Saragin (Indonésia) e a brasileira Luciana Piovesan, do Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais, que, na semana da invasão, estavam em Porto Alegre participando de um encontro paralelo à Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento e deram entrevistas à imprensa justificando a ação. Stédile entrou no caso ao declarar, naquele mesmo dia, que as mulheres estavam de parabéns por chamar a atenção da sociedade para a expansão das plantações de eucaliptos.A delegada Raquel Dornelles, responsável pelo inquérito, disse que também pedirá a prisão preventiva de seis pessoas. Os nomes não foram divulgados sob a justificativa de que o sigilo facilitará a busca se a detenção for autorizada. O inquérito foi remetido à Justiça nesta sexta-feira e o promotor Daniel Indrusiak vai analisar o relatório a partir de segunda-feira. Ele poderá pedir mais informações ou oferecer as denúncias imediatamente.O ataque ocorreu na madrugada do Dia Internacional da Mulher. As militantes chegaram ao horto em 37 ônibus. Depois de render e trancar os dois vigias em um ônibus, passaram a destruir as mudas que estavam prontas ou em preparo para o plantio e as instalações do laboratório, acabando com experiências de melhoramento genético de eucaliptos que já duravam 20 anos.Um mês depoisNesta sexta-feira, um dia antes da depredação completar um mês, o trabalho estava normalizado no viveiro e no laboratório. O gerente industrial da empresa, Renato Rostirolla, disse que a expedição de mudas para o plantio foi retomada uma semana depois do ataque. O laboratório também retomou suas atividades, embora ainda precise de reposição de alguns equipamentos. A retomada rápida das atividades se tornou possível porque 250 trabalhadores da área de plantio, no campo, foram recrutados para participar do mutirão de reconstrução. Os caminhões voltaram a transportar a média de 180 mil mudas por dia para plantio nos hortos florestais da região.Segundo Rostirolla, a Aracruz estima que perdeu um milhão de mudas. O prejuízo da destruição das plantas e do laboratório é calculado em US$ 400 mil. Mas a perda de material genético, dos cruzamentos experimentais, e dos benefícios em produtividade de celulose pode chegar a US$ 6 milhões, admite o executivo. "A empresa vai buscar seus direitos", destaca, avisando que, identificados os autores, a Aracruz deverá mover ações para recuperação dos prejuízos financeiros enquanto a Justiça trata da parte criminal.Desde o ataque, os movimentos ligados à Via Campesina não recebem mais repasses e não são reconhecidos como interlocutores pelo governo do Estado. Oito automóveis e 20 motocicletas que seriam entregues à Cooperativa Central de Assentamentos da Reforma Agrária (Coceargs) permanecem no pátio da Secretaria da Agricultura há um mês. "O ordem de serviço (expedida pelo então governador Antônio Hohlfeldt) está mantida", afirma o secretário em exercício. Iberê Orsi admite que, como os recursos são de um programa nacional, o Pronaf, a liberação poderá ocorrer no futuro. Procurados pela reportagem do Estado, representantes da Via Campesina e João Pedro Stédile não retornaram as ligações.

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