Stédile convoca guerra contra fazendeiros

Em discurso feito no município de Canguçu, na quarta-feira, e publicado ontem pelo jornal Zero Hora, o líder nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, convocou todos os sem-terra e pequenos agricultores do País para uma verdadeira guerra e demarcou o campo de batalha. "A luta camponesa abriga hoje 23 milhões de pessoas. Do outro lado há 27 mil fazendeiros. Essa é a disputa", discursou Stédile. Diante do que julga ser uma oportunidade histórica, Stédile disse pretender intensificar as ações em nome da reforma agrária. Os 27 mil oponentes seriam os proprietários de áreas superiores a 2 mil hectares, e a oportunidade histórica, a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. Desde a quarta-feira, Stédile visitou quatro acampamentos da Via Campesina. Já esteve em Canguçu, Santa Cruz do Sul, Erechim e Palmeiras das Missões. Em Canguçu, chegou chamando a legião de sem-terra de "nosso exército" e os ruralistas de "inimigos", Stédile lembrava sempre a diferença numérica entre os dois grupos, estimada por ele em mil trabalhadores rurais para cada fazendeiro. "Será que mil perdem para um? É muito difícil. O que nos falta é nos unirmos, para cada mil pegarem um. Não vamos dormir até acabarmos com eles." Depois, Stédile deu uma aula de história à sua maneira. Explicou à platéia a origem da concentração de terras no País, dizendo que o surgimento do latifúndio começou com a chegada dos descobridores portugueses e se acentuou com o passar dos séculos. Nesse período, o País teria desperdiçado todas as chances para a realização de uma reforma agrária. A eleição de Lula seria a oportunidade derradeira para a distribuição igualitária da posse da terra. "Estamos diante de uma nova chance histórica", bradou Stédile. "Não podemos fazer como antes e esperar que eles façam a reforma para nós." A palestra do líder do MST incendiou as já tensas relações entre proprietários rurais e sem-terra no Rio Grande do Sul. A repercussão não demorou. Ontem, após a publicação das declarações, a Federação da Agricultura no Rio Grande do Sul (Farsul) e o presidente da Comissão da Agricultura da Assembléia Legislativa, deputado Jerônimo Goergen (PP), encaminharam notícia-crime solicitando que o Ministério Público Estadual promova ação penal, com pedido de prisão preventiva, contra Stédile, por crimes contra a paz pública.

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