ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

'Sou o 2º poste do Lula', afirma Haddad

Em discurso na Avenida Paulista, prefeito eleito exalta padrinho político e admite que, se o eleitor quiser, poderá ficar oito anos no cargo

Bruno Lupion, Fernando Gallo, Julia Duailibi, Vera Rosa e Wilson Baldini, de O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 00h45

SÃO PAULO - O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), ironizou no domingo, 28, a fama de "poste", atribuída a ele na campanha eleitoral. Na festa de comemoração de sua vitória, na Avenida Paulista, Haddad fez piada com o apelido e citou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como responsável por sua eleição.

"Sou o segundo poste do Lula. Tem alguém candidato a poste aqui?", perguntou Haddad, do alto do trio elétrico, numa referência à presidente Dilma Rousseff, que também foi chamada assim quando concorreu à sucessão de Lula, em 2010.

A uma plateia estimada entre 8 mil e 10 mil pessoas, o prefeito eleito admitiu, ainda, que pode ser candidato à reeleição e ficar oito anos no poder, se a população quiser. "Nós vamos trabalhar quatro anos, 365 dias por ano, 24 horas por dia para a gente mudar essa cidade", disse Haddad. O público gritou "oito", numa alusão a um segundo mandato. Ele sorriu e respondeu: "Oito".

Lula não foi à festa nem compareceu ao pronunciamento feito antes por Haddad para não ofuscar o pupilo. "Hoje, o dia é do Fernando", argumentou, segundo relato de amigos que conversaram com ele à noite. O ex-presidente telefonou para Haddad, emocionado, e o cumprimentou. Dilma também ligou. O candidato derrotado do PSDB, José Serra, telefonou bem mais tarde. "Ele me cumprimentou, reconhecendo o resultado das urnas, e disse desejar que nós façamos um ótimo governo em São Paulo", contou o petista.

Na Avenida Paulista, Haddad adotou o mesmo mote de Dilma sobre a pobreza e prometeu erradicar a miséria em São Paulo. "Erradicar a pobreza, acabar com a miséria é não aceitar que alguém passe fome, que não tenha educação, não tenha cultura", insistiu. Haddad falou em mudança, citou "a comunidade LGBT, todas as religiões, todas as crenças e todas as formas de ver o mundo" e garantiu o respeito à diversidade. Foi uma referência à polêmica sobre o chamado "kit gay" durante a campanha.

Muro da Vergonha. Antes, no primeiro pronunciamento após a eleição, Haddad pregou a união das forças políticas da cidade e afirmou que vai governar acima de interesses "individuais e partidários". Disse que pretende acabar com o "muro da vergonha" que separa a cidade rica da pobre e fez críticas indiretas ao prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Escondido na campanha, o deputado Paulo Maluf (PP) compareceu ao hotel Intercontinental, nos Jardins, onde Haddad fez o pronunciamento. Por recomendação do PT, entrou no hotel pela garagem e acompanhou o discurso do prefeito eleito bem perto dele. "Sempre faço política a favor, nunca contra", afirmou.

Haddad agradeceu a vitória a Lula, Dilma, ao PT e aos partidos aliados. Fez homenagem ao deputado Gabriel Chalita (PMDB), que o apoiou no 2.º turno, ao vice-presidente Michel Temer, mas não citou a ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT) nem Maluf.

"É hora de atrair, unir e estimular as forças vivas e o pensamento paulistano para um trabalho acima de interesses individuais e partidários", afirmou o prefeito eleito, antes de se dirigir para a festa na Avenida Paulista. O hotel onde Haddad fez o pronunciamento foi o mesmo onde Lula comemorou suas duas eleições presidenciais. "Meu objetivo central está plenamente delineado, discutido e aprovado pela maioria do povo paulistano: é diminuir a grande desigualdade existente em nossa cidade, é derrubar o muro da vergonha que separa a cidade rica e a cidade pobre."

Para o futuro prefeito, São Paulo tem de voltar a ser "farol e antena". "Farol para iluminar seus passos e os passos do Brasil. Antena para captar o que existe de mais moderno e para transmitir o que tem de mais diferenciado para o nosso País e para o mundo", afirmou.

Apesar de ter feito um discurso pregando a união, Haddad não mencionou Serra nem o PSDB . Deu estocadas em Kassab, sem citar o seu nome, ao dizer que a Prefeitura não fez o seu papel de desenhar políticas urbanas de desenvolvimento. O prefeito eleito destacou que São Paulo "não é uma ilha política tampouco uma cidade de muralhas".

Durante a campanha, Haddad foi acusado de querer promover uma gestão "estatizante", principalmente na área de saúde. O programa de governo não é claro em relação às parcerias com as organizações sociais, que administram hospitais e estabelecimentos de saúde.

Parcerias. "Sei que contarei com o apoio decisivo do governo da presidenta Dilma, mas potencializarei esse apoio apresentando propostas e projetos criativos e irrecusáveis", disse. "São Paulo precisa firmar parcerias vigorosas na esfera pública com o governo federal e com o governo estadual e na esfera privada com o que existe de mais avançado em pensamento e em tecnologia no mundo."

O petista afirmou que pretende atrair a intelectualidade. "O primeiro passo que quero dar a partir de hoje é fazer com que a Prefeitura recupere o seu papel de liderar as forças criativas e sociais da cidade. Nossa intelectualidade nunca perdeu sua capacidade de pensar, mas a Prefeitura, por vezes, perdeu o interesse de atraí-la para um trabalho parceiro", disse o prefeito eleito, professor licenciado da USP.

Em um salão enfeitado com balões vermelhos e brancos, militantes do PT vestiam camisetas com os dizeres: "O futuro venceu. São Paulo optou pelo novo".

O pronunciamento de Haddad, transmitido ao vivo por emissoras de TV, foi acompanhado por militantes petistas que celebravam a vitória no Bar Brahma, no centro. Parte do grupo, no entanto, reclamou do "tom catedrático, professoral" do prefeito eleito. A festa prosseguiu com cerca de 300 petistas, quase todos vestidos de vermelho, ao som de samba.

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