'Sou aliado de Alckmin, mas não alienado', diz Campos Machado

Deputado estadual pelo PTB-SP defende retirada da Corregedoria da Polícia Civil do gabinete da Segurança Pública e causa racha na Assembleia

Fernando Gallo / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2011 | 20h22

Trazido à baila pela insistência em votar o projeto que retira a Corregedoria da Polícia Civil do gabinete do secretário de Segurança Pública e a devolve para a própria Polícia Civil, o deputado estadual Campos Machado (PTB), aliado de todas as horas do governador Geraldo Alckmin avisa: "sou aliado, mas não alienado. Entendi que tinha obrigação moral de apresentar o projeto".

 

Apesar disso, Campos ameniza os efeitos negativos da repercussão que teve sua pressão para levar o projeto a voto: "A minha lealdade e amizade com o Geraldo não vão ser arranhadas por uma coisa tão pequena".

 

Nessa entrevista ao Estado, o deputado dispara contra o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira: "É um homem de boa vontade, mas está no lugar errado. Ele conseguiu quase destruir a dignidade de uma instituição que tem mais de 100 anos".

 

Por que o sr., que é da base do governo, decidiu votar o projeto contra a vontade do governador Alckmin?

Não sei se é contra a vontade do governador. O Geraldo Alckmin nunca me disse nada. É um amigo e um irmão que tenho. Fui vice dele em 2000 e 2008. Basta indagar como é que ele foi candidato em 2010, quando nós fizemos a convenção nacional do PTB aqui pra ele ser candidato a governador. De outro lado, sou aliado, mas não alienado. Entendi que tinha obrigação moral de apresentar o projeto. A Lei Orgânica da polícia determina que a corregedoria seja vinculada à delegacia-geral da Polícia. Não é uma questão do governo, é da Assembleia. Quando eu fiz esse projeto de decreto legislativo, não era eu sozinho. Tinha várias bancadas.

 

Quem mais estava com o senhor?

Todos os integrantes da comissão de prerrogativas parlamentares anterior. No final de junho tínhamos votação garantida. Sessenta votos. O Barros Munhoz (presidente da Assembleia) recebe um telefonema dizendo que o governador me pedia que deixasse pra votar no começo de agosto, pra não atrapalhar a votação da LDO. Liguei pro Beraldo (Sidney Beraldo, secretario da Casa Civil) e disse: "diga pro governador que, em nome da nossa amizade, vamos deixar pra votar em agosto".

 

E então?

Chegou agosto, pautamos o projeto. Eu tinha favorável mais de metade da Casa. Havíamos definido que as discussões seriam apenas sobre a constitucionalidade. Rompido o acordo, tive que entrar também em relação ao mérito. O PT, a bem da verdade, só discutiu uma questão, a constitucional. Bom... os deputados não apareceram na Casa. Brinco dizendo que cinco, seis foram enfartados, quatro estavam vindo pra São Paulo, mas a ponte quebrou... O PSDB entrou em obstrução com quatro deputados. Tivemos 24 votos, seis abstenções. Não votaram 13 deputados do PT. O acordo era votar.

 

O PSDB obstruiu a sessão e teve também uma movimentação de parte do DEM e do PV contra o projeto. O senhor entende isso como uma manobra do governo?

Foi uma ação do líder do governo, que é legítima. O deputado Samuel Moreira fez um trabalho muito forte nesses dias. Parece que o secretário de Segurança pediu pra ele.

 

Apesar disso, o senhor disse que não sabia se essa era uma posição do governador.

Veja bem, essa é uma posição minha. É da Casa, que é independente para decidir seus destinos. O poder Executivo executa, o Judiciário julga e a Assembleia legisla. Não dá pra admitir que a gente deixe de legislar sobre o decreto do Serra e se submeta a decretos.

 

Mas por que especificamente esse decreto? Há outros tantos decretos que o governador publica.

Esse foi o que me chamou a atenção. Recebi a visita de algumas organizações de investigadores e escrivães policiais. Vieram contar a historia de que estavam sendo injustiçados, desmoralizados, porque não havia ocorrido o mesmo em relação à corregedoria da Polícia Militar. E que era questão de honra e dignidade deles. Ora, se tomo conhecimento oficialmente de uma situação dessa, o que faço? Me omito? Silenciar? Isso é coisa dos covardes. Ninguém é mais amigo do governador do que eu. Ninguém foi mais leal do que eu. Só que quando estou na Casa defendendo a Assembleia, tenho obrigação de defender o que é prerrogativa nossa. Você acha que quero que os eventuais malfeitores policiais fiquem impunes?

 

O senhor disse que não tem problemas apenas com relação à inconstitucionalidade do decreto, mas também ao mérito. Onde é que deveria estar a corregedoria?

Tem a da Militar e a da Civil. Na hora em que retiro um órgão que é o coração, queira ou não queira, assino um atestado de que essa polícia é incompetente. O que iria alterar? Quem é que indica o delegado-geral?

 

O secretário de segurança.

Quem indica o corregedor?

 

O delegado-geral.

Através do secretário. Se ele quisesse pegar a corregedoria e colocar na sala dele... é uma questão de disposição dos móveis! Eu pergunto qual é o prejuízo que ia ter se o secretario trouxesse a corregedoria, mantivesse a lei, indicasse o corregedor e colocasse na sala dele?

 

Para ficar claro: o senhor defende que a corregedoria esteja onde?

Na Polícia Civil. Se chegasse uma lei aqui e fosse aprovada, eu concordaria (com a mudança).

 

Do ponto de vista da Segurança Pública, o que é melhor?

Não altera nada! Se eu tenho o controle da corregedoria, ela pode estar na minha casa ou na sua. O que é que tem? O que muda, se indico o delegado-geral, o corregedor, se eu dou as ordens e faço as regras e tudo é feito comigo? Sou presidente de um partido. Você acha que não sei o que se passa em todos os municípios do Estado?

 

O senhor acha que do jeito que está o governo passa um atestado de que a Polícia Civil é incompetente e corrupta?

Não. Acho que quando foi feito esse decreto não se levou em conta a história da Polícia Civil, a dignidade e a existência de uma maioria de policiais honrados e competentes. Um decreto não pode mudar uma lei. Imagina que mandassem um decreto dizendo que a partir de agora vender drogas não é ilegal. Por que o Serra não mandou um projeto pra que a gente discutisse? As pessoas não estão percebendo porque elas já têm lado.

 

É bastante raro que alguém da base do governo na Assembleia insista em votar uma proposta que seja contrária aos interesses do governo. Isso não o incomoda?

Não. Só sou vassalo da minha consciência. Não faço demagogia. Ninguém é mais amigo do Geraldo Alckmin do que eu.

 

Mas o sr. causou o primeiro racha na Assembleia durante a gestão dele.

Mas nós não estamos votando projeto dele! Não estou tentando anular um decreto dele. É um decreto do governador Serra.

 

Mas ele é favorável à manutenção das coisas do jeito que estão.

Ele pode ser favorável, mas eu não sou. Me dê uma razão apenas. É muito mais fácil retirar o projeto. Eu ia ter muito mais benefícios com o governo do que ficando contra. Mas quando o Legislativo de São Paulo perde força, perde força no Brasil inteiro.

 

O senhor tem dimensão de que a alocação da corregedoria é um tema sensível para o governo?

Não vejo o porquê. Por quê?

 

Principalmente porque o governo vem colhendo alguns resultados positivos na área de Segurança e não quer mexer nisso.

Você acha que são resultados positivos mil caixas eletrônicos sendo dinamitados, quebrados? Você acha que no ano passado o aumento de roubos é positivo? O aumento de furtos? Alguém já mostrou as estatísticas verdadeiras das coisas que a corregedoria tá vendo?

 

Que avaliação o senhor faz da gestão Antonio Ferreira Pinto à frente da segurança?

É um homem de boa vontade, não tem nada que me impeça de vê-lo como um homem íntegro, só que eu acho que ele está no lugar errado. Não teve a sensibilidade... Ele conseguiu quase destruir a dignidade de uma instituição que tem mais de 100 anos. É que ninguém tem coragem de dizer isso.

 

O senhor acha que o secretário não tem competência para comandar a Segurança Pública?

Eu o acho um grande promotor público, mas ele não soube conciliar as duas polícias. E foi insensível quando resolveu usar todo um aparato cirúrgico para extrair um dente.

 

O senhor esteve com Alckmin? Tratou desta matéria?

Estive com ele, mas não falei desse assunto. Só falei pra ele: governador, me peça tudo, menos isso. Foi um segundo, em uma conversa de uma hora e meia.

 

O senhor está trabalhando para que o projeto volte ao plenário em outubro?

Eu não faço questão de ganhar. O importante é estar no lugar certo. É um acordo. Por que eu pedi que o projeto saísse da pauta e fosse pautado na primeira semana de outubro? Porque tem cinco, seis projetos, de aumento de funcionário público.

 

O senhor disse que tinha 60 votos para aprovar o projeto em junho. Por que o apoio diminuiu?

Por que o governo fez a parte dele. O Samuel Moreira fez tudo direitinho, cumpriu a obrigação dele como líder do governo. Ele cumpriu seu dever constitucional. Agora, entre um simples líder partidário e o líder do governo, evidentemente o vento não tem cor, jogou pra lá. Você não quer que eu tenha a força pra enfrentar o governo.

 

Houve algum desgaste na relação do sr. com o governo ou com o governador Alckmin?

Lealdade é cicatriz da alma de um homem. A minha lealdade e amizade com o Geraldo não vão ser arranhadas por uma coisa tão pequena. Tenho absoluta certeza de que o governador não vai ficar magoado comigo, porque nos piores momentos... hoje todo mundo é alckmista. Nos piores momentos eu estava lá. Acredito na força e na lealdade da amizade que nos une. O dia em que não acreditar mais nisso, não tem porque eu ser amigo dele.

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