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Sonhos de Temer

O presidente acredita que a questão da denúncia se resolverá no início de agosto

João Domingos, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2017 | 03h00

O presidente Michel Temer hoje joga um xadrez político. Mexe seus peões, peões um tanto envergonhados, mais dispostos ao anonimato do que aos holofotes, e tenta proteger seu governo de um xeque-mate. A ideia é seguir vivo até maio ou junho do ano que vem. A partir daí, ele sabe que a visibilidade do governo tenderá a se tornar opaca, a quase desaparecer, o que poderá lhe render a paz.

Ganharão força as negociações em torno de candidaturas às eleições presidenciais, as convenções partidárias, as caras novas que por certo surgirão e as caras velhas que voltarão à cena. Depois, as eleições, o vencedor, a composição ministerial, o novo governo, a volta para casa de quem sonhou em entrar para a História como um presidente reformista. Temer acha que se esse plano der certo – e ele está certo de que dará, porque a partir de 17 de setembro termina o mandato do procurador-geral Rodrigo Janot –, ele terá condições de retomar a reforma da Previdência. Quem sabe, se conseguir aprová-la, passará os últimos seis meses de seu mandato desfrutando o resultado das reformas, aumento do PIB em cerca de 3% e a volta do emprego.

Temer não imagina a possibilidade de a Câmara aceitar a denúncia de Janot, que o acusa de crime de corrupção passiva, com base na gravação de uma conversa que teve com o empresário Joesley Batista. Uma conversa pra lá de esquisita, mas que, segundo ele, foi obtida por motivo torpe e só ocorreu por ingenuidade sua. O presidente acha que a questão da denúncia se resolverá logo no início de agosto, quando a Câmara fará a sessão para decidir se ele deve ou não ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

Ele trabalha com a certeza de que o PSDB, que tem quatro ministérios, que é seu parceiro desde o início do governo, que batalhou pelo impeachment de Dilma Rousseff, vai negar-lhe muitos votos. Mesmo assim, mesmo sabendo da infidelidade futura dos tucanos, Temer não vai retaliá-los. 

Seu raciocínio é político, assim como o jogo que pretende fazer. Nas suas contas, os votos dos tucanos favoráveis à abertura da investigação, que se somarão aos dos partidos de oposição, são insuficientes para tirá-lo da Presidência. Então, para que mexer com eles? Num futuro próximo, quando a onda provocada pela denúncia de Janot passar, a Câmara não terá mais como postergar a apreciação da reforma da Previdência. Nesse momento, a tucanada se unirá de novo ao governo, porque a reforma interessa a eles. 

Desde que assumiu o governo, Temer decidiu não fechar as portas para ninguém, por mais ferrenha que seja a oposição sofrida. Aconselhado a retaliar as Organizações Globo, que apostaram na queda dele, rejeitou o conselho. Disse acreditar que um dia os dirigentes do conglomerado de comunicação vão buscar a recomposição. A mesma atitude foi tomada com relação a partidos, como o PSDB e o PSB. Mesmo rachados, eles podem render alguns votos a seu favor. Se retaliados, podem retaliar também. E um voto é sempre um voto.

Para Temer, as dissidências vão se resolver por si mesmas. Como acredita que vai se livrar das acusações, poderá, a partir de agosto, mostrar para todos que o governo continua de pé. Por isso mesmo, prevê que o parlamentar que hoje se distanciou voltará a se aproximar dele naturalmente. Porque desgastado ou não, continuará a se sentar na cadeira presidencial, com a mesma caneta na mão, com a mesma disposição para o diálogo. Como conhece muito bem o Congresso e, principalmente, a Câmara, que presidiu por três vezes, além de ser líder do PMDB por anos, Temer busca raciocinar como se fosse parlamentar: se o governo segue seu rumo, melhor estar bem com ele do que estar mal.

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