Sonho de afegãos no Brasil é "dormir em paz"

O primeiro grupo de refugiados afegãos que o Brasil está acolhendo chegou a Porto Alegre nesta sexta-feira. As dez pessoas - dois casais com três filhos cada - foram recepcionadas no aeroporto Salgado Filho pelo ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, e por representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e de organizações não governamentais locais. "Quero ter uma vida tranqüila e dormir em paz", disse Marzieh Rahimi, de 28 anos, esposa do jornalista e ativista político Abdol Vahed Rahimi, de 37 anos.O assentamento dos afegãos na capital gaúcha foi viabilizado por um convênio do Acnur com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, e com a Central de Orientação e Encaminhamento (Cenoe), a ONG que vai cuidar do atendimento local e da integração das famílias à comunidade. Feliz, surpreso e assustado com o assédio da imprensa, o jovem Vali Ahmad Faghiri, de 16 anos, desembarcou com o desejo de construir sua vida no Brasil. "Vamos permanecer aqui até quando nos deixarem", afirmou. Falando como porta-voz do grupo, o professor Nesar Ahmad Faghiri, de 56 anos, agradeceu a solidariedade do governo brasileiro, da ONU e da Cenoe.Faghiri admitiu conhecer pouco do Brasil, mas elogiou a afetividade das pessoas com quem manteve contato. "Depois de 23 anos sofrendo situações de guerra, estamos encontrando paz a calor humano", comentou, emocionado. O ministro da Justiça lembrou que o mundo vive um momento de intolerância e considerou a chegada dos refugiados como um ato que tem o significado da paz.Cansadas pelas 40 horas de viagem iniciada na quarta-feira à noite em Teerã, as duas famílias recolheram-se ao Hotel de Passagem da Brigada Militar, onde ficam hospedadas por uma semana. Depois serão encaminhadas às casas alugadas pela Cenoe, na zona norte de Porto Alegre.A ONG gaúcha, que receberá recursos do Acnur para dar assistência aos refugiados, já obteve oferta de empregos para os refugiados em oficinas mecânicas, postos de gasolina, restaurantes, indústrias de confecções e comércio de madeiras.Os dois chefes de família têm formação de nível médio. Faghiri, que tem três filhos adolescentes, com idades de 12 a 16 anos, estudou em uma escola religiosa islâmica. Rahimi, pai de três crianças, com idades entre um e sete anos, é técnico em engenharia e coloca entre suas profissões também a de pedreiro. "Nos primeiros meses eles terão trabalhos que não dependam do uso da língua portuguesa", salientou a advogada Rosaura Scavone, diretora da Cenoe. O ensino do português será oferecido inicialmente por integrantes da comunidade Bahá, capazes de entender o persa, língua falada pelos afegãos que vão morar em Porto Alegre.No rápido contato inicial com a imprensa, os afegãos não contaram sua trajetória. A Acnur e a Cenoe informaram que eles fugiram de seu país há cerca de 10 anos, durante a guerra civil que se seguiu à retirada das tropas soviéticas e antes da milícia taleban tomar o poder. No Irã, onde estava o grupo que chegou nesta sexta-feira, e na Índia, onde permanecem as outras 13 pessoas de três famílias que mudam-se para Porto Alegre no dia 26 de abril, os refugiados não tinham sua permanência assegurada e temiam ser devolvidos ao Afeganistão, onde suas vidas estariam em perigo.

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