Sobretaxa ao etanol ainda não foi negociada com EUA

Os Estados Unidos e o Brasil fecharam na manhã desta sexta-feira um acordo sobre biocombustíveis. Três pontos já foram acertados: a cooperação entre os dois países no desenvolvimento da tecnologia de etanol de celulose, a transformação do produto em commodity e a transferência de tecnologia para terceiros países. Contudo, fica ainda a expectativa sobre uma possível redução da sobretaxa imposta ao etanol brasileiro que entra no mercado norte-americano.Na quinta-feira, dia 8, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sinalizado que pediria ao presidente norte-americano, George W. Bush, a redução desta taxa. Contudo, será uma negociação difícil. Funcionários da Casa Branca têm repetido nos últimos dias que a revisão das tarifas é assunto para o Congresso. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, o álcool brasileiro paga atualmente uma sobretaxa de US$ 0,54 por galão ou US$ 0,14 por litro para entrar nos EUA.Fontes ligadas ao setor sucroalcoleiro dizem que o memorando de entendimento sobre biocombustíveis, assinado nesta manhã pela secretaria de Estado Condoleezza Rice e pelo ministro Celso Amorim, foi apenas uma oficialização do que já estava em pauta. Apesar disso, o diretor-técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, avalia que a vinda de Bush é o início de uma negociação importante. "Até então, nunca havia ocorrido uma conversa nesse nível, de presidente para presidente. Era tudo muito informal. Daí a importância", afirmou.Cautela com acordoO empresário e conselheiro da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Maurílio Biagi Filho, que faz parte da comitiva de recepção ao presidente norte-americano, também diz que a expectativa é em relação às tarifas. "Mas essa é a única coisa que ele (Bush) não vai fazer", falou, referindo-se a uma possível definição sobre o assunto. Mas Biagi acredita em resultados positivos a respeito, ainda que não imediatos. "É um primeiro passo".O presidente do Conselho de Câmara Americana de Comércio (Amcham-SP), Alexandre Silva, também presidente executivo da General Electric do Brasil, disse que "a questão da tarifa que existe hoje sobre o álcool brasileiro, com a ampliação do mercado, os próprios americanos é que acabarão por extinguir ou diminuir esta barreira. No momento, o Brasil não produz álcool suficiente para suprir por inteiro as necessidades americanas. Sou pragmático neste caso".Contudo, ele entende também que o investimento em pesquisa tecnológica, que deverá ser feito e pode atingir US$ 1,6 bilhão, é realmente muito importante. Para ele, a disposição de parceria dos Estados Unidos mostra que ele acredita no Brasil.Para o analista para América Latina do Eurasia Group, Christopher Garman, a visita do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, à América Latina mostra uma intenção de melhorar as relações com a região, embora essa decisão venha num momento não tão favorável ao presidente americano. De acordo com ele, Bush tem hoje um governo enfraquecido, uma popularidade em baixa e dificuldades num Congresso controlado por democratas. Segundo Garman, Bush não tem hoje condições de negociar taxas na importação do etanol, mas o fato é que o governo americano está mais propício hoje para cooperar com o Brasil e também com outros países da América Latina. "Reduzir a vulnerabilidade energético do país está no topo da agenda dos Estados Unidos. Então, na medida em que o Brasil pode ser parceiro nesse sentido, existe uma confluência de interesses muito grande e isso propício para uma cooperação crescente no médio e longo prazo", observou.Entenda o que já está acertadoForam três os pontos já negociados entre os EUA e o Brasil sobre combustíveis. São eles:- cooperação entre os dois países no desenvolvimento da tecnologia de etanol de celulose: este produto é produzido a partir da energia contida no bagaço e na palha da cana-de-açúcar. A expectativa é de que o Brasil consiga dominar esta técnica a partir de 2009. De acordo com especialistas, a produção do etanol de celulose aumentaria o volume fabricado pelo país, sem a necessidade de ampliar a área plantada de cana, já que a matéria-prima deste etanol é alternativa à cana de açúcar.- transformação do produto em commodity: o cumprimento deste acordo significa que o etanol seria um produto com preço definido no mercado internacional e produção padronizada em várias partes do globo. Ou seja, sua cotação seria dada em dólares e definida no mercado externo, assim como o petróleo. Se a demanda dos países por etanol for alta, isso pode até elevar o preço do produto.- transferência de tecnologia para terceiros países: apesar de Brasil e Estados Unidos serem os maiores produtores mundiais de etanol - no caso dos americanos, produzido a partir do milho -, interessa aos dois países que o álcool seja produzido em outros países que também tenham condições para isso, como nos da América Central. Isso porque a maior disseminação da produção ajuda a transformar o combustível em commodity, pois aumenta a segurança no abastecimento. Para o produtor brasileiro, isso deve trazer um impacto positivo.Colaborou Adriana Rota

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