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Eliane Cantanhêde
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Sobre heróis e vilões

Esquerda e direita veem o fim do mundo, mas o Brasil precisa de pés no chão e crescimento

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2018 | 05h00

A esquerda insana imagina uma imensa articulação internacional, quiçá intergaláctica, para as forças pró-finanças e anticivilização dominarem os países e trucidarem os povos, inclusive o Brasil e os brasileiros. E a direita delirante vê globalistas, China maoísta, esquerda internacional, ambientalistas, abortistas, corintianos, flamenguistas, marcianos e jupiterianos destruindo a civilização ocidental cristã. O ponto em comum entre os dois polos é o horror à globalização, um processo sem volta. Uma nova guerra mundial? Ou o fim do mundo?

Tudo grandiloquente, eletrizante, como as histórias em quadrinhos do grande Stan Lee, em que heróis com poderes sobrenaturais enfrentam vilões ambiciosos e desalmados que ameaçam a humanidade. Muita ação, cor, fantasia, capas, máscaras e símbolos que saem de escritos e pranchetas e invadem não países, mas revistas, livros, telas e a imaginação de milhões pelo mundo afora. A ficção diverte, mas as teorias conspiratórias e fundamentalistas ameaçam.

Um mesmo personagem faz furor na história em quadrinhos que se mistura com a realidade do Brasil, mas num duplo papel. Ele é excêntrico, grandalhão, usa um topete curioso e cabelos cor de laranja e tem um harém à sua disposição. “Dono” da maior potência política, econômica e bélica, ele faz e fala o que quer. Para a esquerda, ele é o grande vilão a ameaçar a Terra. Para a direita, o único herói, ou Deus, capaz de salvar o Ocidente e os valores cristãos que vêm sendo devorados pela esquerda.

Enquanto a esquerda delira e a direita vai conferindo um arcabouço teórico grandioso para o bolsonarismo, nós, leigos, meros mortais, estamos mais preocupados com questões bem mais urgentes do que invasões extraterrestres, heróis que voam, escalam paredes, dominam oceanos, correm na velocidade da luz e ameaçam o planeta.

O que interessa, de fato, na posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, em 2019, é como, com que equipe, com quais parceiros e em que prazo o Brasil vai voltar a crescer, gerar empregos, garantir educação e saúde, avançar na ciência e na tecnologia, investir na infraestrutura, combater a violência e aprofundar a guerra contra a corrupção. 

Tudo isso passa pelos ministérios da Economia e das Relações Exteriores e por boas escolhas para as demais pastas. Bolsonaro vinha sendo aplaudido pelos nomes para o GSI, Justiça, Agricultura, Ciência e Tecnologia, pelo compromisso de delegar a formação da equipe econômica para o superministro Paulo Guedes, um liberal, e pela capacidade de ouvir e recuar quando necessário.

O anúncio do diplomata Ernesto Araújo para o Itamaraty, porém, interrompeu os aplausos, atraiu críticas e salpicou o futuro governo de interrogações. As declarações do próprio Bolsonaro sobre política externa já tinham criado ruídos e respostas estridentes da China, do Egito, do Mercosul, de especialistas em comércio e em relações internacionais. E agora, com a intensa circulação dos textos do futuro chanceler a favor do “deus” Trump, contra a “China Maoísta”, o “climatismo”, o “antinatalismo”, o “vazio cultural da Europa”?

O objetivo da política externa e a expertise de diplomatas é atrair simpatia para o Brasil, abrir horizontes, atrair investimentos, facilitar negócios e garantir fartos superávits nas relações comerciais. Se até o maior parceiro comercial e responsável pelo maior superávit é tratado a caneladas, fica difícil. Nem Donald Trump, metido numa capa vistosa, escalando o Empire State, enfrentando demônios e invasores marcianos poderá salvar o Brasil. Aliás, o herói Trump já enfrenta muitos vilões, assim como o vilão Trump já persegue muitos super-heróis. Ele não está nem aí para o Brasil.

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