Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Sobrado de Itu é ‘documento’ da convenção que enterrou a Monarquia

Casarão da família Almeida Prado sediou reunião republicana 16 anos antes da Proclamação da República

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

ITU – Um acontecimento marcante da luta republicana aconteceu em Itu: em 18 de abril de 1873, um casarão de dois pavimentos sediou a Convenção Republicana, 16 anos antes do fim o Império. O sobrado, construído no início do século 19, passou por várias reformas, mas mantém a estrutura original, segundo a historiadora Anicleide Zequini, do Museu Convenção de Itu, que hoje funciona no lugar. Ele é uma extensão do Museu Paulista, da Universidade de São Paulo (USP).

“A fachada é a mesma que os convencionais viram, com azulejos portugueses na platibanda, as mesmas portas e janelas, embora pudesse haver uma segunda porta de entrada”, diz. O museu foi inaugurado em dia 18 de abril de 1923, 50 anos após a reunião republicana, com a proposta de ser um memorial da República. Antes de ser adquirida pelo Estado, a casa pertencia à família Almeida Prado e era usada como residência por Carlos Vasconcelos de Almeida Prado.

Os registros mostram que 133 pessoas de 16 cidades paulistas, incluindo a capital, participaram do evento, mas a historiadora acredita que eram mais. “Com certeza foram mais de 200, mas nem todos fizeram o registro da presença”, afirma Anicleide. Segundo ela, a maioria dos convencionais, se não morava na cidade, tinha laços familiares com Itu. “Campinas e outras cidades disputaram a realização da convenção, mas a votação realizada nos clubes republicanos deu a vitória a Itu.” 

A pesquisadora revela que o mobiliário não é o da época. O historiador Afonso de Taunay planejou a sala da convenção para mostrar aos visitantes como vivia uma família rica no século 19. “Ele comprou os móveis de um professor local, e montou um cenário muito próximo do que seria o casarão dos Almeida Prado.” São 15 cadeiras, uma poltrona, um piano, dois gabinetes e uma mesa de centro. Nas paredes, foram fixados os quadros a óleo dos sete convencionais que compuseram a mesa principal.

A sessão foi presidida por João Tibiriçá Piratininga e secretariada por Américo Brasiliense de Almeida Melo, incumbido de redigir a ata. O mesário foi Francisco de Paula Sousa. Também faziam parte da mesa Francisco Emigdio da Fonseca Pacheco, Ignácio Xavier Paes de Campos Mesquita, Joaquim Saldanha Marinho e José Vasconcellos. 

A criação de um jornal para ser um órgão do Partido Republicano ocupou parte dos debates. Naquela reunião, João Tibiriçá alegou que “o assunto não era dos que deviam ser votados, por não fazer parte das bases da organização”. Contudo, lembrou ser “de suma importância e grande alcance não se descuidarem os republicanos da imprensa, elemento essencial de propaganda das ideias e princípios, que são professados pelos cidadãos presentes”, conforme a ata. O próprio João Tibiriçá, além de outros convencionais ituanos são considerados fundadores do jornal A Província de São Paulo, atual O Estado de S. Paulo, cuja primeira edição circulou em 4 de janeiro de 1875. 

A convenção começou às 5 da tarde e terminou 8h30 da noite, conforme registrou o relógio que hoje está no Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro. “Quando Washington Luís doou o relógio para o museu do Rio, ele informou que havia marcado as horas na convenção de Itu”, diz Anicleide.

Uma das preciosidades do acervo, a coleção de pinturas de 116 convencionais, está guardada. Os quadros são expostos em revezamento no museu. Taunay requisitou artistas de renome para fazer as pinturas, baseadas em fotos cedidas pelas famílias. Ao menos dois deles foram pintados por Tarsila do Amaral. A historiadora conta que faltaram 16 quadros, porque não se conseguiram as fotografias dos convencionais. As fotos eram reproduzidas fielmente pelos pintores.

Ao lado da sala principal ficavam os quartos do casarão. Ao conceber a estrutura do museu, Taunay decidiu derrubar as paredes que dividiam os quartos e fazer um único salão grande, dedicado às exposições. Entre móveis e objetos de época, destacam-se telas a óleo de Henrique Manzo e Almeida Junior. 

Outro destaque, é a sala dedicada a Prudente de Morais, primeiro presidente civil, nascido em Itu. Prudente participou da convenção e teve papel importante na proclamação da República. “Há quem duvide da presença de Prudente na convenção, pois a assinatura dele foi feita com caneta diferente da usada pelos demais. Taunay, no entanto, confirmou que ele esteve no evento, junto com o irmão”, diz Anicleide.

O livro ata da Convenção e o registro das presenças são outras relíquias do acervo. Segundo Anicleide, a peça documental mais importante da Convenção Republicana é o sobrado onde tudo aconteceu. “Muita coisa da época foi mudada. Quase todas as casas dos convencionais ituanos desapareceram ou se descaracterizaram, como a residência de Elias Lobo, transformada em pizzaria. O prédio da estação, inaugurado na mesma época, foi todo deformado. Já o sobrado dos Almeida Prado continua o mesmo da época, é o documento vivo da história.” 

Transição do Império para Republica 

Entre o final do século 18 e as últimas décadas do século 19, o café fez a riqueza de grandes produtores rurais no interior paulista e, por meio deles, deu sustentação política ao Império. Nesse período, surgiram os “barões do café”, expressão usada pelos historiadores para designar, não apenas os grandes cafeicultores, mas também senhores de engenho e donos de grandes fortunas, que recebiam títulos de nobreza do imperador como garantia de apoio e fidelidade.

No quarto final do século 19, muitos desses fazendeiros se tornaram críticos da Monarquia, por considerar o regime excessivamente conservador. “A Monarquia dava passos de forma muito lenta, desagradando os fazendeiros”, conta o historiador Genaro Campoy Scriptore. “Os produtores (de café) queriam ferrovias, mas a Monarquia tardava a atender, então a iniciativa privada tomou a frente, fez as ferrovias e apoiou os movimentos pela República.”

Registros importantes dessa mudança aconteceram em Itu. Em 17 de março de 1823, a cidade recebeu de d. Pedro I o título de “A Fidelíssima”, pelo apoio à Monarquia. Uma placa, na fachada de um casarão da Praça Padre Miguel, marca o local onde a moção de apoio foi assinada. Meio século depois, a cidade sediou a grande convenção a favor da República. Cinco anos antes da queda do Império, em novembro de 1884, o imperador Pedro II foi a Itu e se hospedou, com a família imperial, no casarão da família Caselli, outro marco histórico.

Nos primeiros anos da República, muitos fazendeiros resistiram ao novo regime. “Meus antepassados eram monarquistas e, enquanto outros fazendeiros da região estavam descontentes, eles continuavam fiéis ao imperador”, conta João Pacheco, proprietário da antiga Fazenda Engenho Grande, atual Chácara do Rosário, em Itu. A propriedade está com a família há sete gerações. “Foi comprada pelo meu ‘setimavô’, Antonio Pacheco da Silva, em maio de 1756. Ele era descendente dos bandeirantes e aplicou em terras o dinheiro nas minas”, diz.

De acordo com Pacheco, outros descendentes se tornaram republicanos. É o caso dos donos da Fazenda Vassoural, que atualmente pertence a Maria Mercedes Pacheco Vergueiro da Silva e seu marido, Gilberto Vergueiro da Silva. “Meu avô, Sérvulo Correia Pacheco e Silva, era republicano e fazia reuniões em casa. Ele dizia para minha avó: ‘Marina, vamos servir almoço para 100 pessoas’. Ela corria ao terreiro para matar galinhas, porcos, e saía um banquete.”

A Chácara do Rosário é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).  

MUSEU REPUBLICANO CONVENÇÃO DE ITU

Rua Barão do Itaim, 67, centro histórico F.: (11) 4023.2525

Aberto de terça a domingo, das 10 às 17 horas

Entrada gratuita  

CHÁCARA DO ROSÁRIO – ITU

Rod. Convenção Republicana, km 1,5 F. (11) 99607.7483

Eventos, visitas e passeios a cavalos sob consulta.

 

FAZENDA VASSOURAL – ITU

Rua Porto Velho, 300 F.: (11) 3062.2696

Eventos sociais e festas. Visitas sob consulta. 

 

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