Sob segredo de Justiça, perícia do acidente já começou

Oficiais acreditam que piloto desistiu do pouso e arremeteu porque chuva e névoa o impediram de localizar o eixo da pista

ROBERTO GODOY, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 23h16

A tela do computador da sala de operações da Base Aérea de Santos indicava que o dia seria “chuvoso e nublado”, com a temperatura oscilando entre 13 e 20 graus. Na segunda resolução, a informação adicional – nevoeiro súbito, vento forte. Nada, porém, capaz de impedir as operações de pouso e decolagem. Passava pouco das 9 horas. 

O experiente piloto Geraldo Cunha, ex-comandante comercial da TAM, tinha sob comando um notável jato executivo de até 12 lugares – o modelo usado por Eduardo Campos era configurado para nove passageiros, com mais um assento dobrável, adicional –, o Cessna 560 XL, Citation. No mundo há cerca de 580 unidades desse bimotor de médio porte.

Robusto, com poderosos motores Pratt & Whitney 500 e recursos eletrônicos de última geração, ele podia cobrir 3.900 quilômetros sem escalas na velocidade de cruzeiro de 850 km/h. A Força Aérea Brasileira emprega versões eletrônicas do Citation para calibragem de seus sistemas de orientação do tráfego.

Segundo dois oficiais da aviação militar ouvidos pelo Estado, o comandante Cunha tomou a decisão de abortar o pouso e de arremeter, provavelmente ao não localizar visualmente o eixo da pista de 1.400 metros, talvez em meio à chuva fina e à névoa rasteira. O que houve depois, acreditam os militares, será conhecido só por meio da investigação e da perícia.

A hipótese de que tenha havido esforço excessivo das turbinas, exigidas ao máximo durante a arremetida, era considerada pouco provável entre prestadores de serviços de manutenção de aeronaves da mesma classe do Citation. O fenômeno, raro, ocorre quando o motor supera seu limite e perde potência, em vez de ganhar força de empuxo.

Ontem mesmo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa) começou a trabalhar. O levantamento é protegido por sigilo de Justiça. Nos termos da lei assinada pela presidente Dilma Rousseff, a polícia e o Ministério Público precisam de autorização judicial para ter acesso ao processo, ouvindo, antes, o próprio Cenipa. O cuidado é justificado como forma de preservar a investigação da causa e de aprender com ela, sem necessariamente apurar as responsabilidades. 

Registros. O PR-AFA tinha caixas-pretas. O dispositivo acumula dados em uma espécie de disco rígido. O sistema terá armazenado a conversa entre os pilotos e os contatos com os controladores. Informações a respeito dos freios, asas, fuselagem, dos motores e dos movimentos realizados são reunidos do Módulo de Captação. A unidade resiste a impactos de 15 toneladas.

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