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Sob pressão de CPI, Bolsonaro fala em vacinar brasileiros até o fim do ano e é alvo de panelaço

Presidente afirma em pronunciamento que pretende imunizar toda a população contra a covid até o fim deste ano

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 21h12
Atualizado 02 de junho de 2021 | 21h56

BRASÍLIA – Pressionado pela CPI da Covid e enfrentando queda de popularidade, o presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira, 2, um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV e afirmou que o governo irá vacinar todos os brasileiros até o fim do ano. 

No momento em que mais de 467s mil brasileiros já morreram, em decorrência do novo coronavírus, Bolsonaro comemorou a distribuição de 100 milhões de doses de vacinas, o crescimento de 1,2% do PIB no primeiro trimestre, mas voltou a criticar medidas de isolamento social. A aparição do presidente foi marcada por “panelaços” nas principais capitais e diversas cidades do País. Foi o nono pronunciamento do presidente desde o início da pandemia.

“Hoje alcançamos a marca de 100 milhões de doses de vacinas distribuídas a Estados e municípios. O Brasil é o quarto país que mais vacina no planeta. Este ano, todos os brasileiros que assim o desejarem serão vacinados”, disse ele, citando dados absolutos, e não proporcionais. Apenas 22,2% da população recebeu ao menos uma dose de vacina contra o novo coronavírus até hoje.

No pronunciamento, o presidente comemorou o acordo assinado entre a Fiocruz e a AstraZeneca, que permitirá a produção totalmente nacional do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), necessário para a elaboração do imunizante. “Com isso, passamos a integrar a elite de apenas 5 países que produzem vacinas contra o covid no mundo”, disse. O presidente não mencionou o “tratamento precoce” com medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

Bolsonaro também falou sobre a realização da Copa América no Brasil, defendida por ele desde que a competição na Argentina foi cancelada. A realização do torneio no País tem sido criticada em um momento de crise sanitária na qual médicos pedem que sejam evitadas as aglomerações.

“Seguindo o mesmo protocolo da Copa Libertadores e Eliminatórias da Copa do Mundo, aceitamos a realização, no Brasil, da Copa América. O nosso governo joga dentro das quatro linhas da Constituição. Considera o direito de ir e vir, o direito ao trabalho, e o livre exercício de cultos religiosos inegociáveis. Todos os nossos 22 ministros consideram o bem maior de nosso povo a sua liberdade”, afirmou.

Bolsonaro destacou o pagamento de auxílio emergencial pelo governo federal e comparou o aporte para a distribuição do benefício ao Bolsa Família. “Destinamos, em 2020, R$ 320 bilhões para o auxílio emergencial, para atender aos mais humildes. Esse montante equivale a mais de dez anos de Bolsa Família. E mais de R$ 190 bilhões para ajudar estados e municípios”, declarou.

Durante o pronunciamento, Bolsonaro foi alvo de panelaços no Distrito Federal, São Paulo, Rio e diversas outras capitais pelo País. Em São Paulo, manifestantes bateram panela em bairros como Santa Cecília, Vila Mariana, Sumarezinho, Vila Madalena, Alto de Pinheiros, Pompeia, Barra Funda, Saúde, Jardins, Moema e Higienópolis.

Moradores do Rio de Janeiro promoveram intenso panelaço durante a fala do presidente. Enquanto Bolsonaro citava medidas adotadas por sua administração para a vacinação contra covid-19, houve manifestação em bairros da zona sul, do centro, da zona norte e da região oeste. Além do barulho das panelas, as pessoas gritavam “fora, Bolsonaro” e “genocida”.

Um panelaço também tomou conta de Brasília durante o pronunciamento do presidente . Gritos de “Fora, Genocida”, “Assassino” e “Miliciano” foram ouvidos em várias quadras do Plano Piloto de Brasília e também nos Lagos Sul e Norte.

Em Salvador, ao menos sete bairros registraram panelaços. Em Armação, na orla, foi possível ouvir os manifestantes gritarem “vacina para todos”, “genocida” e “vai cair”.

No Recife, o panelaço foi intenso. Foi possível ouvir também gritos como “fora Bolsonaro” e “genocida”. O bairro de Boa Viagem, na zona sul da cidade, onde ocorreu o protesto a favor do governo, no dia 15 de maio, também registrou panelaços intensos, que duraram até pouco depois do pronunciamento.

Em Fortaleza, gritos “fora, Bolsonaro!” e “Bolsonaro genocida” foram registrados em bairros de diferentes regiões, como Aldeota, Meireles, Cocó, Papicu, Joaquim Távora, Bairro de Fátima, Centro e Parangaba.

Em Belo Horizonte, houve panelaço em várias regiões da cidade. Os protestos foram intensos nos bairros próximos ao centro, como o Barro Preto, onde os manifestantes gritavam “Fora Bolsonaro”, “Genocida”, “Miliciano” e até “Vai tomar cloroquina”.

Em Porto Alegre, o pronunciamento  foi acompanhado de protestos. Panelaços e gritos de “fora Bolsonaro” foram registrados em pelo menos sete bairros da cidade.

Interior de São Paulo

O pronunciamento foi acompanhado de panelaços nas principais cidades do interior. Em Sorocaba, moradores de edifícios na região central bateram panelas e utensílios domésticos durante toda a fala presidencial. Houve manifestações também no bairro Altos do Campolim e em prédios de Votorantim, cidade vizinha.

Em Campinas, além de bater panelas no centro e nos bairros Taquaral e Cambuí, os moradores fizeram coros de “fora Bolsonaro”. Motoristas acionaram as buzinas em avenidas do centro. Em São José dos Campos, houve panelaços na região central e foram acionadas sirenes durante o pronunciamento. Muitos moradores pediram aos gritos a saída do presidente. Houve panelaços também em Piracicaba e Ribeirão Preto. Em Santos, vídeos gravados por moradores mostram panelaço na região do Gonzaga.

Leia a íntegra do pronunciamento:

Boa noite, 

Sinto profundamente cada vida perdida em nosso país. 

Hoje alcançamos a marca de 100 milhões de doses de vacinas distribuídas a estados e municípios.  

O Brasil é o quarto país que mais vacina no planeta. 

Neste ano, todos os brasileiros, que assim o desejarem, serão vacinados. Vacinas essas que foram aprovadas pela Anvisa. 

Ontem, assinamos acordo de transferência de tecnologia para a produção de vacinas no Brasil entre a AstraZeneca e a Fiocruz.  

Com isso, passamos a integrar a elite de apenas cinco países que produzem vacina contra a Covid no mundo.  

O Nosso governo não obrigou ninguém a ficar em casa, não fechou o comércio, não fechou igrejas ou escolas e não tirou o sustento de milhões de trabalhadores informais.  

Sempre disse que tínhamos dois problemas pela frente, o vírus e o desemprego, que deveriam ser tratados com a mesma responsabilidade e de forma simultânea.  

Destinamos, em 2020, 320 bilhões para o Auxilio Emergencial para atender aos mais humildes.  

Esse montante equivale a mais de 10 anos de Bolsa Família. E mais de 190 bilhões para ajudar estados e municípios. 

Alguns setores como bares e restaurantes, turismo, entre outros, em grande parte foram socorridos pelo nosso governo por meio do PRONAMPE (Programa Nacional de Apoio as Microempresas e Empresas de pequeno porte.)  

Hoje mesmo sancionamos a nova lei do PRONAMPE, agora permanente, que pode destinar a vários setores até 25 bilhões de reais, onde 20% será destinado ao setor de eventos. 

Terminamos 2020 com mais empregos formais que 2019. Somente nos primeiros quatro meses deste ano, o Brasil criou mais de 900 mil novos empregos. 

O PIB projetado para 2021 prevê um crescimento da economia superior a 4%. 

Só no 1º trimestre deste ano, a economia mostrou seu vigor, estando entre os países do mundo que mais cresceram. 

Com o Congresso Nacional estamos avançando, aprovamos: 

- A nova lei do gás; 

- O marco legal do saneamento; 

- A MP da Liberdade Econômica; 

- O Banco Central independente; e 

- E o novo marco fiscal. 

Realizamos leilões de rodovias, portos e aeroportos. 

Levamos internet para mais de 8 milhões de brasileiros em grande parte para as regiões Norte e Nordeste. 

Ontem, a Bolsa de Valores bateu recorde histórico, a moeda brasileira se fortalece, e estamos avançando no difícil processo de privatizações. 

A CEAGESP sob um comando honesto e responsável apresentou, além de lucro, um ambiente salutar entre os permissionários e funcionários.   

Essa Companhia socorreu nossos irmãos de Aparecida e Araraquara, entre outras cidades do interior de São Paulo, doando dezenas de toneladas de alimentos. 

As estatais, no passado, davam prejuízo de dezenas de bilhões de reais devido à corrupção sistêmica e generalizada. Hoje são lucrativas.  

Nos dois primeiros anos do nosso Governo, a Caixa Econômica Federal bateu recorde de lucro mesmo reduzindo os juros do cheque especial, da casa própria, das micros e pequenas empresas e dos empréstimos às Santas Casas. 

Estamos avançando na transposição do Rio São Francisco, levando água para todo o Nordeste. 

Na infraestrutura, o nosso Governo tem construído pontes, duplicado rodovias, terminando obras paradas há décadas, como a BR-163 no Pará. 

Ainda neste ano, será concluída a Ferrovia Norte-Sul, que ligará o Porto de Itaqui, no Maranhão, ao Porto de Santos, em São Paulo, é a retomada do modal ferroviário no Brasil. 

Seguindo o mesmo protocolo da Copa Libertadores e Eliminatórias da Copa do Mundo, aceitamos a realização, no Brasil, da Copa América. 

O nosso Governo joga dentro das 4 linhas da constituição, considera o direto de ir e vir, o direito ao trabalho e o livre exercício de cultos religiosos inegociáveis.  

Todos os nossos 22 ministros consideram o bem maior de nosso povo a sua liberdade. 

Que Deus abençoe o nosso Brasil.

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