Dida Smapaio/Estadão
Dida Smapaio/Estadão

Sob pressão das ruas, DEM manda recados ao Planalto em convenção

Apesar de ocupar três ministérios, partido não está na base aliada, mas aprova moção de apoio à reforma da Previdência

Vera Rosa e Mariana Haubert, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 19h47

BRASÍLIA - Em convenção marcada por recados ao Palácio do Planalto, o DEM procurou se apresentar nesta quinta-feira, 30, como o partido da moderação na cena política, que defende a agenda econômica, mas não dá um cheque em branco ao governo.

Embora ministros da equipe de Jair Bolsonaro estivessem no palco, dirigentes da sigla fizeram questão de delimitar as responsabilidades do Palácio do Planalto e do Congresso.

O único a pregar publicamente a entrada do DEM na base aliada de Bolsonaro foi o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. O apoio formal ao governo, porém, passou longe de qualquer votação, apesar de o DEM ocupar três ministérios (Casa Civil, Saúde e Agricultura) desde janeiro.

Sob o slogan "O Brasil não pode parar", a convenção que renovou por mais três anos o mandato do prefeito de Salvador, ACM Neto, no comando do DEM, também serviu para defender o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criticado nas manifestações pró-governo, há quatro dias.

No auditório Nereu Ramos, onde foi realizada a convenção, deputados,senadores e até o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, fizeram uma espécie de desagravo a Maia. Além disso, o DEM pôs em prática a estratégia retórica para se desligar do Centrão, grupo que reúne cerca de 230 dos 513 deputados e tem sido alvo de ataques nas ruas e nas redes sociais.

No dia em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou a queda de 0,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, o presidente da Câmara defendeu a votação de temas que possam resultar na recuperação econômica, com a retomada dos empregos. Por sugestão do deputado, a convenção do DEM aprovou nesta quinta uma moção de apoio à reforma da Previdência.

Logo após Caiado pedir “encarecidamente” que o DEM entrasse na base de sustentação do Planalto, sob o argumento de que “o partido não pode dar uma de Pôncio Pilatos e lavar as mãos”, Maia disse que ser ou não ser governo é o que menos importa.

“O mais importante é ser a favor de uma agenda”, insistiu ele, que vê um momento de “radicalização” na política. “E não é tudo responsabilidade do Parlamento. Vamos separar as responsabilidades.Não podem transferir todas as responsabilidades e todos os males para a Câmara."

ACM Neto seguiu na mesma toada ao afirmar que o DEM não podia “gastar energia” com o debate sobre a adesão ao governo. “Conclamo que não percamos tempo com aquilo que não vai nos levar a nada”, resumiu. Para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP), o DEM muitas vezes ajuda mais Bolsonaro do que o próprio PSL, partido do presidente. “Não estou fazendo crítica. É uma constatação”, destacou.

Após tantas estocadas, Caiado admitiu não ter maioria para sua tese. “Fui vencido hoje, mas continuo dizendo que não vai adiantar falar amanhã, se houver algum insucesso, que não estávamos umbilicalmente ligados ao governo”, comentou o governador, no fim da convenção.

VELHA GUARDA. Diante de uma plateia formada por deputados, senadores e também pela “velha guarda” do PFL, sigla que deu origem ao DEM, ACM Neto disse não ser possível pensar em retomada do crescimento sem fortalecer as instituições. Com planos de se candidatar ao governo da Bahia, em 2022, o prefeito observou, ainda, que os brasileiros não foram às urnas, no ano passado, para defender radicalismos de direita nem de esquerda.

Foi, na prática, um recado para Bolsonaro, que, no diagnóstico de partidos do Centrão, estimulou os ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF) nos atos de domingo.

Nem mesmo a proposta de pacto entre os Poderes, patrocinada por Bolsonaro, serviu, porém, para acalmar os ânimos. Agora, a ideia também é alvo de críticas dentro e fora do Congresso.

“A política existe para evitar a guerra”, afirmou ACM Neto. “Temos de refutar com bom senso todo e qualquer tipo de radicalismo.” Em mais um movimento para descolar o DEM do Centrão, ele não escondeu o incômodo com a pecha de fisiologismo que marca as ações do grupo. “Nunca admitimos o troca-troca da velha política. O DEM não aceita rótulos e muito menos carimbos”, reagiu o prefeito de Salvador.

O Centrão tem a imagem desgastada desde a época em que o então presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ) -- réu da Lava Jato e preso há quase três anos -- liderava o bloco. Atualmente, Maia é apontado como principal articulador do Centrão, que tem em seu núcleo duro siglas como DEM, PP, PL (ex-PR), PRB, MDB e Solidariedade.

 “A forma pejorativa com que muitas vezes tratam o DEM e outros partidos é o caminho para o enfraquecimento da nossa democracia”, protestou o presidente da Câmara. “Nós criticamos e apontamos erros das pessoas, mas os partidos são fundamentais", emendou ele, aplaudido pela plateia.

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