Só sobraram as costureiras e os meninos

A máquina de costura era vista como amuleto e ferramenta de trabalho das enfermeiras do Contestado

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 19h10

Depois de semanas na mata, um grupo de mulheres rebeldes e meninos da família Palhano se instalou no local onde existira o reduto do Taquaruçu, a 40 quilômetros do centro de Fraiburgo, Santa Catarina. Os militares tinham deixado a área. A chefe do grupo, Vergília, perdera o marido, mas não perdera o castiçal de bronze usado nos partos e a máquina de costura, sua única ferramenta no trabalho de enfermeira dos rebeldes. Os militares não sabiam que, nos redutos, a máquina de costura, as linhas e os pequenos trapos de pano eram utilizados para socorrer os feridos.

 

 

Vergília, morta nos anos 1940, passou a tradição da "costura de rendedura" para a filha Maria Cândida Palhano, que mais tarde ensinou para a sobrinha Enoina Palhano, 54 anos. "Na época da guerra, tinha muita gente ferida e não tinha médico. Só tinha mulheres. Elas faziam costuras perto dos feridos e passavam a agulha com linha em pequenos pedaços de pano em cima dos ferimentos e davam a benção", relata Enoina. As máquinas tinham a função de objeto sagrado, um amuleto. Uma mulher só passa essa tradição que mistura costura e fé para outra da família quando acha que está perto da morte. "Eu só posso contar as palavras que são ditas no benzimento quando estiver mais velha, pois se não esqueço."

 

Enoina diz que basta "costurar" para sarar uma ferida ou uma doença. "Tia Candinha era a maior benzedora daqui", relata a costureira, uma das Palhano que moram na região de Taquaruçu.

Vergília era mãe de Francisco Teixeira Palhano, pai de Candinha e Jurandira, mãe de Enoina. Francisco e as filhas também sobreviveram aos ataques do Exército. Um pequeno depoimento dado por Candinha foi guardado pela comunidade num pequeno museu montado com projéteis e armas da guerra. "Não queira nem saber o que é que nós sofremos lá. Vinha canhão urrando em cima de nós. Saímos fugindo, meu pai e uma penca de gente, pelo sertão bravo."

 

Casada com o agricultor Avelino Rogério de Almeida, Enoina tem cinco filhos, de 35 a 17 anos. A mais nova é portadora de deficiência. Durante o dia, Enoina toma conta dos seis netos para as filhas, que trabalham no plantio de alho em um terreno afastado da casa. Enquanto a equipe do jornal conversava com ela, chegaram do trabalho as filhas Solange e Josiane - as moças, com roupas cheias de barro, demonstram timidez e vergonha.

 

Para ajudar no orçamento da família, Enoina faz cestos de palha de milho e costura roupas. Nos últimos anos, o número de clientes da costura reduziu. "As pessoas preferem comprar roupa pronta na cidade, que sai mais barato", diz. A uma pergunta se reduziu também o número de crianças e adultos que a procuram para benzimentos, ela responde que não. "A saúde é uma deficiência aqui. Estamos a 40 quilômetros do centro da cidade, onde tem posto de saúde. Não temos ônibus. Uma corrida de carro até custa R$ 50. Então, as pessoas tentam resolver com a 'costura da rendedura'", diz. "Não é fácil para a piazada doente."

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