Só Lula pode resolver impasse na Câmara, avaliam aliados

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá, mais cedo ou mais tarde, de imprimir sua digital no já conturbado processo de sucessão pelo comando da Câmara. Aliados políticos dizem, nos bastidores, que apenas sua intervenção poderá colocar fim à profusão de candidaturas da base e evitar o risco de abrir espaço para o que chamam de "candidaturas aventureiras". Dois candidatos da base, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual presidente da Casa, e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), querem o posto. Ambos correm atrás dos votos do PMDB, fundamental em uma corrida dividida. Aldo formalizou o pedido nesta quarta-feira ao presidente da sigla, Michel Temer (PMDB-SP), e ouviu do dirigente partidário a promessa de que consultará o partido no dia 17 de janeiro. O PMDB é o maior partido da Câmara e teria a prerrogativa de indicar o presidente da Casa. Pelo peso numérico que tem, o apoio da legenda é fundamental para decidir a eleição. "O ideal para a Câmara seria encontrar uma solução de todos os partidos em torno de um nome único", defendeu Temer, reproduzindo a mensagem dada a Aldo. O problema é que Aldo e Chinaglia estão irredutíveis. O petista disse aceitar uma votação interna na base aliada para chegar ao consenso em torno de um só nome. As negociações de Chinaglia com o PMDB parecem estar mais avançadas. Pelo acordo, ainda não referendado pela bancada, o PT assumiria a presidência pelos próximos dois anos e o PMDB garantiria apoio para eleger um candidato da sigla no biênio seguinte. Arlindo Chinaglia sustenta que Aldo não pode cumprir esse acordo, pois ele se refere a uma prerrogativa das duas maiores bancadas da Casa (PT e PMDB) de ficarem com os principais postos. Pelo combinado, em troca da presidência, o PT passaria ao PMDB o direito de escolher a segunda vaga mais importante da Mesa Diretora, trunfo que o PCdoB de Aldo não tem. "Tomo isso (a oferta de Aldo) como um elogio, porque significa que fizemos o movimento político correto e na época certa", disse Chinaglia. "Mas o acordo com o PMDB é intransferível porque se trata de um acordo entre as duas maiores bancadas, em que a segunda escolha é do PT, ninguém mais pode oferecer isso", completou. A disputa entre os dois prejudica a costura da coalizão de governo arquitetada pelo presidente Lula e eleva o risco do surgimento de uma terceira candidatura, numa reedição considerada perigosa do efeito Severino Cavalcanti, que ganhou a disputa após uma divisão da base aliada, em 2005. O presidente reluta em interferir na disputa, mas políticos ligados ao Planalto avaliam que esse caminho é inevitável e que só ele pode convencer um dos lados a recuar, seja se valendo da persuasão política, seja contemplando um dos lados com um ministério. "Só Lula salva", disse um líder de um partido aliado sob condição de anonimato. Diante da divisão da base aliada, parlamentares do PMDB já avisam: na hipótese de as duas candidaturas ficarem mantidas, lançarão uma terceira via. É justamente esse cenário que Lula quer evitar. Em um dia de muitas conversas secretas, o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE) telefonou para Temer e manifestou, mais uma vez, sua disposição de entrar na disputa caso não haja consenso entre o PT e o PCdoB.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.