Só intervenção federal pode mudar ES, diz Justiça Global

A corrupção no aparelho de governo, no sistema policial e na Justiça do Espírito Santo tem impedido todas as tentativas de combate ao crime organizado no Estado, e o pedido de intervenção federal arquivado ontem pelo procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, seria o único instrumento capaz de levar as investigações adiante, defendeu hoje o Centro de Justiça Global."Juízes, promotores, delegados de polícia, funcionários e políticos que tentam investigar o crime organizado sofrem todo o tipo de pressão, são afastados, sujeitos a processos administrativos ou simplesmente ameaçados de morte ou assassinados", relatou James Cavallaro, diretor executivo do Centro. O Centro divulgou hoje um manifesto de apoio ao ministro Miguel Reale Júnior, da Justiça, que pediu demissão do cargo ontem, depois que Brindeiro anunciou o arquivamento do pedido de intervenção.A diretora de Pesquisa e Comunicação do Centro, Sandra Carvalho, lembrou que o pedido, feito em 1995 pelo Ministério Público Federal (MPF), de extinção da Scuderie Le Cocq, organização abertamente comprometida com a criminalidade, está parado na Justiça. "Nenhuma das denúncias encaminhadas à Justiça, desde 2000, pela CPI do Narcotráfico, foi levada adiante", denuncia Sandra.A CPI do Narcotráfico investigou e denunciou dezenas de nomes e de organizações ligadas ao crime organizado que agiam no Espírito Santo, entre eles o atual presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz (PFL). Nada menos que 103 páginas, das 900 páginas do relatório final da CPI que descrevem a situação do narcotráfico em todos os estados brasileiros, foram dedicadas ao Espírito Santo."A impunidade é fator determinante para a escalada de criminalidade no Espírito Santo, que ocupa lugar de destaque no macabro campeonato da violência, com índice anual de 55 homicídios para cada 100 mil habitantes", dizia o relatório. Com base em milhares de páginas de depoimentos, documentos e relatórios de investigações iniciadas e abortadas nas polícias e na Justiça do Estado, o relatório da CPI denunciou a "atuação aberta dos grupos de extermínio, de esquemas de corrupção e espoliação do Erário por máfias municipais e os mecanismos de impunidade" no Espírito Santo.Sandra lembrou hoje que os diversos prefeitos, deputados e policiais abertamente denunciados pela CPI continuam impunes. "Desastroso é o caso da Scuderie Le Cocq, grupo de extermínio que deu origem aos famigerados esquadrões da morte, e que permeia todo o aparelho de estado", afirmou ela.O relatório da CPI denuncia a ligação da Scuderie com o narcotráfico e o crime organizado. "A ligação da Scuderie com o Narcotráfico residiria no fato de que vários dos acusados de extermínio, membros da Scuderie, terem sido presos com grandes quantidades de cocaína", diz o relatório. Testemunhas relataram à CPI que inúmeros crimes cometidos por membros da Scuderie eram apurados por policiais e depois remetidos à promotores e juízes que também integravam a Scuderie, "acarretando assim, a completa impunidade dos criminosos".

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