Pedro Venceslau/Estadão
Pedro Venceslau/Estadão

Skaf defende volta ‘serena e gradual’ da atividade econômica

Presidente da Fiesp, que tem feito ponte entre governo federal e grandes empresários, defende fim da quarentena em SP no dia 22

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 16h11
Atualizado 13 de abril de 2020 | 20h33

Aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf (MDB), tem sido a principal ponte entre o governo e os empresários desde o início da pandemia do novo coronavírus. O dirigente não aderiu à proposta de reabrir imediatamente o comércio e acabar com o isolamento social estabelecido para combater a covid-19, como defenderam empresários bolsonaristas do varejo, mas advoga a tese de encerrar a quarentena estabelecida pelo governo paulista no dia 22 de abril. Skaf acredita que a infraestrutura de saúde vai estar preparada para demanda.

“Até o dia 22 nós temos tempo para ter toda a infraestrutura de saúde preparada e começarmos a reativar a atividade econômica de forma gradual. Temos de reativar de forma prudente, gradativa e com todas as cautelas, como uso de máscara e distanciamento. Defendo que isso seria o melhor para o Brasil”, disse o dirigente empresarial ao Estado. Esse foi o tema de reunião virtual com 40 empresários, como Abílio Diniz, Luiz Carlos Trabuco e David Feffer, que fazem parte do grupo “Diálogo pelo Brasil”. Eles discutiram um protocolo para a retomada da economia a partir do fim da quarentena. 

No último dia 6 de abril, o governador João Doria (PSDB) prorrogou a quarentena decretada dia 24 de março como prevenção ao coronavírus até o dia 22 de abril. No entorno do tucano, no entanto, a avaliação é que o decreto pode ser prorrogado por outros 15 dias ou mais, dependendo do quadro do avanço da pandemia. A entidade empresarial, que não se manifestou sobre as falas de Bolsonaro minimizando a covid-19, não se opôs ao decreto paulista e vai lançar nas próximas semanas uma campanha massiva em defesa do uso de máscaras pela população. 

Na contramão do otimismo da Fiesp, o secretário municipal de Saúde da capital, Edson Aparecido, disse que, em apenas uma semana, 60% dos 1.662 leitos de baixa e média complexidade para pacientes como coronavírus foram ocupados. O Estado de São Paulo acumula no Brasil o maior número de mortes relacionadas à covid-19.

Agenda intensa com ministros de Bolsonaro e empresários

Skaf tem mantido uma agenda intensa com ministros do governo e empresários. Na semana retrasada, a Fiesp realizou uma reunião virtual com o presidente Bolsonaro, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ministro chefe da Casa Civil, general Braga Netto, e 40 grandes empresários. Na ocasião, Skaf manifestou uma “preocupação” que vai ao encontro do discurso do do Planalto de enfrentamento aos governadores: as decisões isoladas do Estados e prefeituras podem “desestruturar” a operação da produtiva.

“A questão da segurança jurídica preocupa porque ela é tudo. No momento que você sente que cada prefeito ou governador vai ter regras distintas ou impedir a logística que leve alimentos e remédios”, disse Skaf.

 O empresário recebeu a reportagem do Estado usando máscara em unidade do Senai. Ao chegar ao local, todos têm a temperatura medida. Quem for detectado com febre é impedido de entrar. Na sede da entidade, na Avenida Paulista, as regras são ainda mais rígidas. Além da medição de temperatura, os visitantes são submetidos a um questionário feito por uma enfermeira. 

O presidente da Fiesp conta que fez duas vezes o exame da covid-19, sendo que ambas testaram negativo. O primeiro foi feito após um evento com Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação da Presidência,  que contraiu o vírus. E o segundo devido a um motorista que também foi contaminado.

Nas reuniões com o governo, os empresários se disseram preocupados com a intervenção dos estados em empresas da área de saúde, como ocorreu em São Paulo, onde o governador Doria  recolheu 500 mil máscaras para profissionais da saúde da empresa 3M com base em lei federal sobre emergência de saúde. O termo “insegurança jurídica” foi usado por ele ao falar de casos como esse e a eventual apreensão de respiradores.

No sábado passado, Skaf comandou outra reunião – desta vez com o ministro da Economia, Paulo Guedes. O colegiado empresarial presente se manifestou majoritariamente contra abrir subitamente o comércio, como defendeu Bolsonaro. A ideia é que o processo ocorra por etapas e começando pelos produtos essenciais. Essa estratégia também é defendida pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB). O tom de Skaf diverge do discurso negacionista dos empresários bolsonaristas do varejo, donos de empresas como Coco Bambu, Bio Ritmo, Havan e Madero. “A reabertura deve acontecer de forma equilibrada, serena e responsável”, disse Skaf. 

Ainda filiado ao MDB, mas de malas prontas para o Aliança pelo Brasil quando a sigla sair do papel, Skaf evitou se posicionar publicamente em defesa do presidente, que tem sido alvo de panelaços diários. Apesar de bolsonaristas cobrarem nos bastidores que a Fiesp defenda institucionalmente a agenda do governo, o presidente da Federação se recusa a falar de política e a responder às críticas feitas a ele pelo governador Doria. O dirigente empresarial prefere discorrer sobre as ações da Fiesp, Sesi e Senai, que está produzindo álcool gel para comunidades carentes e recuperando respiradores danificados. Foram mais de 50 até agora.

Skaf e Braga Netto são ponto de contato entre empresários e governo

Na reunião de 20 de março, ficou acertado que  Skaf e Braga Netto seriam o ponto de contato entre os empresários e o governo e os dois têm mantido contato frequente. Na última quarta-feira, 1º, o governo federal anunciou dois conjuntos de medidas tributárias e trabalhistas para o enfrentamento dos efeitos do combate ao Coronavírus na economia que foram sugeridos pela Fiesp.

“As medidas tributárias e trabalhistas fazem parte das propostas que a Fiesp encaminhou ao governo, como muitas outras, e serão importantes para ajudar as empresas a manter o emprego da população. Inúmeras iniciativas, porém, ainda precisam ser tomadas, como o adiamento do pagamento dos demais tributos federais, bem como dos estaduais e dos municipais”, disse o presidente da Fiesp.

Skaf pleiteia ainda mais acesso ao crédito bancário. “As empresas continuam com extrema dificuldade nesse sentido. O Tesouro Nacional precisa ser o garantidor das operações entre empresas e bancos neste momento. Só assim o mercado será irrigado com recursos, e o dinheiro chegará a quem precisa. O crédito é fundamental para que as empresas sobrevivam e possam garantir os empregos durante a crise e também na volta à normalidade”, disse o empresário.

Sem aliados de peso em São Paulo, Bolsonaro viu em Skaf um aliado estratégico no maior Estado da federação. O empresário recebeu a promessa de assumir o comando da Aliança pelo Brasil no estado e ser o candidato da sigla ao Palácio dos Bandeirantes em 2022.

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