Sindicalistas ''alugam'' claque para manifestos

Em Planaltina (DF) moradores são arregimentados a R$ 40 por dia

Lisandra Paraguassú, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Sindicalistas de Brasília encontraram uma forma prática de arregimentar manifestantes sem ter de convencê-los dos seus pontos de vista: pagá-los. Gastando R$ 40 por cabeça, um grupo pode ser reunido para protestar a favor da liberação dos bingos, fazer número na Marcha dos Trabalhadores ou qualquer outra ação, contra ou a favor qualquer coisa, em nome de qualquer partido.Criada há cerca de quatro anos, a Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST) parece ser freguesa assídua do agenciamento de manifestantes. Em reportagem publicada pelo site Consultor Jurídico, Bruno Maciel, membro da Nova Central, garante aos repórteres que já fez "diversas vezes" a contratação de 50 a 800 pessoas e foi tudo tranquilo.Ao lado da Nova Central, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade (Contratuh) do Distrito Federal também tem larga experiência com o método de arregimentação. "Quando você vai organizar uma passeata, você contrata pessoas: ?Eu quero 500, 600.? Você paga para essa pessoa, porque fica muito caro trazer do País inteiro para se manifestar", disse ao jornalista uma pessoa que se identificou como Oton, responsável pela comunicação do sindicato.A contratação dos "militantes" começa em Planaltina, cidade-satélite a 30 quilômetros de Brasília. A suposta "agenciadora de manifestantes" chama-se Sandra Ribeiro, tem cerca de 30 anos e, até o que o Estado pôde averiguar, nenhum vínculo com os sindicatos ou as áreas que atuam. Está desempregada - a menos que se conte como trabalho a ocasional arregimentação de manifestantes. "A Sandra é a pessoa que, toda vez que a gente vai fazer uma manifestação, ela arruma as pessoas. Se você quiser, até 2 mil pessoas ela arruma para você", disse ao Consultor Jurídico Rogério José Cardoso, dirigente da Contratuh. Nas conversas, o jornalista não se identificou como repórter, mas pediu ajuda para organizar uma passeata "Fora, Sarney", contra o presidente do Senado.É na vizinhança de sua casa em Planaltina que Sandra encontra seus manifestantes. Em uma das zonas mais pobres, de uma cidade miserável do Distrito Federal, em meio a milhares de pessoas desempregadas ou vivendo de bicos, não é difícil encontrar quem queira protestar por R$ 40 ao dia. Boa parte dos seus vizinhos já participou pelo menos uma vez de movimentos organizados por ela.Procurada ontem pelo Estado, Sandra não foi encontrada. Não atendeu o telefone de casa e, ao ouvir a identificação do jornal, desligou o celular. NOTA FISCALNa conversa com o Consultor Jurídico,ela não se mostrou tão receosa. Prometia quantas pessoas o interlocutor quisesse, ônibus e coordenadores para organizar as pessoas. Ela mesma cobrava R$ 350, se tivesse apenas de arregimentar gente, mas o preço subiria se tivesse de preparar camisetas e conseguir um carro de som. Prometeu até mesmo uma nota fiscal, apesar de ainda não ter uma empresa registrada. "Estou montando uma empresa, mas posso arrumar uma nota, se você quiser. Ou podemos fazer um contrato, eu assino, sem problemas", disse.Apesar de ter prestado vários serviços para a Contratuh, procurado ontem pelo Estado, o sindicato negou conhecer Sandra e sua atuação. O presidente da Nova Central, José Calixto Ramos, disse não conhecer Sandra, mas não negou que o sindicato tenha pago manifestantes. Diz que, em Brasília, a Nova Central tem apenas diretores e é "natural o pagamento". "As pessoas têm de ter alimentação, transporte. É uma diária", justificou. Mais do que isso, garante que "todo mundo faz" e vê um complô para desmoralizar a Nova Central.

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