''Sinal de melhora é aumento de população''

No debate sobre a Raposa, os militares insistem que não pode haver restrições à entrada deles nas grandes áreas indígenas de fronteira, sob risco de comprometer a segurança nacional.Nunca houve restrições. Eles sempre entraram onde quiseram, sempre construíram quartéis nos locais que determinaram - mesmo sem consultar as populações indígenas. Os índios não constituem nenhum problema para a segurança da fronteira brasileira. Nem as ONGs. Os militares falam do risco das ONGs internacionais, mas ignoram os aviões que pousam e decolam de pistas clandestinas rasgadas nas terras dos ianomâmis em Roraima.Por ordem do presidente Collor, as pistas clandestinas foram explodidas na época da criação da terra dos ianomâmis.Pelos relatos dos índios, não passa um dia sem pousos e decolagens. Calcula-se que são 2 mil garimpeiros atuando lá dentro. Esses homens perceberam que a lei não os alcança e agem estimulados pela sensação de impunidade.Áreas tão extensas e pouco povoadas podem constituir um risco?No caso dos ianomâmis, sei que têm um controle muito grande sobre as áreas onde vivem. Eles costumam passar pela fronteira, em direção a países vizinhos, como a Venezuela, porque mantêm relações com os seus parentes que vivem lá. Mas são visitas com objetivos determinados, para intercâmbios entre os xamãs, casamentos, trocas de objetos. Ao mesmo tempo, porém, eles detectam rapidamente qualquer movimento estranho em suas terras. Um cachorro diferente que aparece numa aldeia torna-se logo objeto de atenção. O sistema de comunicação é muito confiável. Na Raposa, em mais de uma ocasião, os índios identificaram a presença de traficantes e chamaram as autoridades.Por que resolveu trabalhar entre os índios brasileiros? Não foi uma decisão minha. Quando me tornei missionário, no início dos anos 60, meu desejo era ir para a África. Mas os superiores da congregação me mandaram para o Brasil, aqui para Roraima. Passei alguns meses na cidade, até que, no dia 1.º de Maio de 1965 (nunca esqueço essa data), tive contato com um grupo de ianomâmis que nos visitava. Fiquei impressionado. Comecei a trabalhar com eles e nunca mais parei.Mas houve melhoras, não?Sim. Um dos sinais é o aumento da população indígena.

Entrevista com

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