Simon vê PT 'sem rumo' e diz que PMDB vive momento mais importante no governo

Ex-senador gaúcho comentou decisão de Dilma em escolher o vice, Michel Temer, como seu mais novo articulador político

Entrevista com

Gabriela Lara, correspondente de O Estado de S. Paulo

09 Abril 2015 | 20h25

PORTO ALEGRE - O desdobramento da crise política enfrentada pela presidente Dilma Rousseff (PT) brindou o PMDB com um protagonismo mais próximo daquele almejado por Pedro Simon para o partido no cenário nacional. Em entrevista ao Broadcast Político, o ex-senador gaúcho reconheceu que, com a nomeação do vice-presidente da República, Michel Temer, para coordenar a articulação política do governo, o PMDB vive o momento mais importante desde que passou a integrar a base governista petista.


Simon apoiou a aliança do PMDB com Lula, mas se tornou um dos símbolos da ala peemedebista contrária à participação da legenda no governo de Dilma. Há anos defende que o PMDB tenha candidato próprio ao Palácio do Planalto e, nas eleições de 2014, fez campanha para Marina Silva - que concorreu pelo PSB. Agora, acredita que o PT "perdeu o rumo" e que a habilidade de Temer para o diálogo com o Congresso pode dar o fôlego de que Dilma precisa para governar. "Ele tem condições de fazer este entendimento", afirmou. Considerado "independente" dentro do partido que ajudou a criar, o político parece mais sereno do que nos tempos de Congresso. Após se despedir de 32 anos de Senado e 60 de vida pública, ele se diz realizado por viajar o Brasil para propor "um grande debate" sobre o País. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:


O senhor sempre criticou a aliança do PMDB com o governo da presidente Dilma. Como avalia hoje esta relação?


Após ficar oito anos no governo com o Fernando Henrique Cardoso e mais 12 com o PT, hoje o PMDB está vivendo um momento muito interessante e importante. De repente aconteceu que o PT perdeu o rumo. Ele não sabe o que faz, não sabe levar adiante... Os índices de prestígio e de credibilidade da presidenta que estavam em 80% hoje estão 12%. E então o PMDB tem nas mãos o comando da Câmara e do Senado, e a figura do Michel Temer.


O PMDB está assumindo um protagonismo no governo que antes não tinha?


Estou dizendo é que neste momento é escolhida a figura do vice-presidente da República para a intermediação política. Ele tem condições de promover este entendimento que o governo devia fazer, mas que a Dilma não tinha condição de fazer. O diálogo dele é o do entendimento. Tenho certeza de que ele vai conversar, vai fortalecer o bloco do governo (no Congresso Nacional), mas nada o impedirá, na posição em que está, de buscar um entendimento, conversar inclusive com partidos da oposição.


O PMDB está no seu momento mais importante nos governos recentes do PT?


É o momento em que ele (o partido) tem realmente a posição mais importante. O problema grande que temos hoje é o da crise política, crise de diálogo. Ninguém se entende. E então a presidente entrega para o vice-presidente (a articulação política). Nunca houve uma coisa como esta, foi o momento mais importante. Com todo mundo dizendo que o presidente da Câmara tem uma pauta dele, que o presidente do Senado tem outra pauta, que a oposição tem outra pauta, pode ser que o vice-presidente tenha condição de iniciar este entendimento.


Por que a presidente tomou esta decisão agora? Ela percebeu que teria mudar a estratégia?


Com toda a sinceridade, ela não é do ramo. O único cargo a que foi eleita é o de presidente da República. Ela não foi nem vereadora, nem presidente de partido. Ela teve a competência de em determinado momento reconhecer que este era o caminho. Ou nós fazemos um grande movimento em torno das reformas reais, ou vai ser uma confusão.


Como o senhor avalia a atuação de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara e de Renan Calheiros à frente do Senado?


Não dá para dizer que o Renan Calheiros e o Eduardo Cunha estejam fazendo uma política própria. Estão dizendo: 'Vamos colocar em votação as coisas que precisam ser votadas, independentemente de pressão ou coação por parte do governo'. Eles ficam numa posição simpática porque adotam uma posição de independência. Como o normal é uma atitude servil ao Executivo, quando se tem uma atitude de independência isso chama a atenção, mas não é mais do que a obrigação. Na hora de votar um projeto é preciso ver o que é importante para o País. O governo selou um acordo com os governadores em torno da dívida dos Estados. Tudo resolvido, mas estamos em abril e o governo da presidenta não regulamenta o projeto, mesmo com a lei votada no ano passado e o acordo feito. É o interesse do Executivo (adiar a regulamentação). Mas qual é o interesse da nação?


Que análise o senhor faz dos 100 dias do segundo mandato da presidente?


O que ouvi de comentários é que, com esta nomeação (de Michel Temer), agora ela poderá governar, porque até agora ela não fez nada.


O senhor concorda com isso?


Não se fez nada, só teve coisas negativas até agora. Não vi uma coisa positiva no governo dela. Agora é o recomeço. 


Como está sua rotina em Porto Alegre? Sente falta do Congresso?


Não sinto. Estou tentando iniciar algo que acho que a sociedade toda deveria fazer: ir para a rua propor um grande debate em torno do Brasil. E que esta pauta não seja um pacote apresentado pela presidenta, nem pela OAB, nem pela oposição, e que resulte em uma perspectiva do entendimento. Eu já dizia no Senado que em meus 60 anos de vida pública não havia visto uma situação tão complexa como a que estamos vivendo. Não temos uma ditadura, nada está ameaçando as instituições, mas a situação, na minha opinião, é impressionantemente complicada. Se a sociedade fosse às ruas e buscasse o diálogo para encontrar uma fórmula para as mudanças, seria uma saída. Estou percorrendo o Brasil, atendendo a convites e fazendo palestras nesse sentido. 

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