Victor Moriyama/The New York Times
Victor Moriyama/The New York Times

Simbologia dos blindados visa seguidores radicais; leia análise

Com desfile de veículos de combate na Praça dos Três Poderes horas antes de a Câmara votar a PEC do Voto Impresso, Bolsonaro não esperava virar nenhum voto contrário à sua obsessão pelo "voto auditável"

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2021 | 18h21

RIO - Quando as dificuldades apertam, o presidente Jair Bolsonaro costuma acenar para seus seguidores mais radicais, às vezes evocando o seu passado militar. Foi assim nesta terça, 10, com o anacrônico desfile de veículos de combate pelo Distrito Federal, horas antes de a Câmara votar a PEC do Voto Impresso, com grandes chances de mandá-la para o arquivo.

Político vivido - tem 33 anos de mandatos eletivos, contra os 14 de vida militar -, Bolsonaro não esperava, com a passagem de blindados obsoletos e fumacentos, virar nenhum voto contrário à sua obsessão pelo “voto auditável”. Parecia mais querer embrulhar o “jogo jogado” da derrota de uma forma que ajudasse a preservar o seu público para o embate de 2022.

Nas últimas semanas, o presidente brigou com o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Seus magistrados desistiram dos conselhos e das notas de repúdio e resolveram agir, investigando-o. O governo tem sido duramente atingido pelas descobertas da CPI da Covid. Também comanda uma economia com quase 15 milhões de desempregados.

O cenário difícil o convida a reforçar o personagem vitorioso em 2018. É aquele Bolsonaro, que elogiava o torturador Brilhante Ustra e atacava quilombolas, que se apresenta. Não que tivesse ido embora. Mas agora, com os tanques na rua, torna palpável a seus devotos a ameaça de reagir “fora das quatro linhas da Constituição”, a uma derrota no ano quem vem.

O presidente sabe das dificuldades do uso da força na política brasileira, apesar da fidelidade do ministro da Defesa e da anomia dos comandantes militares. Mas precisa manter o apoio que ainda tem. Está atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, capitaneia uma economia com inflação inédita nos últimos anos e não tem o que apresentar a seus eleitores.

Insinuar que pode levar suas investidas “contra o sistema” a  um golpe, mesmo difícil e improvável, pode ser a fronteira final do discurso de um presidente que vive de símbolos e narrativas. O inverno está chegando.

 

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