Silvinho queria cozinhar, mas vai cuidar de bueiros

Em pena alternativa, petista integrará equipe da zeladoria de subprefeitura

O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2008 | 00h00

Na tarde calorenta do Jardim Peri-Peri, o homem que um dia teve autoridade e poder para indicar nomes em postos estratégicos do governo Lula apresentou-se ao seu novo endereço de trabalho - Subprefeitura do Butantã, às margens da Rodovia Raposo Tavares, extremo oeste de São Paulo.Silvio José Pereira, o Silvinho, ex-secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, que no auge do mensalão ganhou uma Land Rover de um fornecedor da Petrobrás, chegou às 14h28, ele mesmo ao volante de um Palio Weekend prata, com placas DPP-7530.Dentro de um jeans desbotado, camisa de manga xadrez e tênis preto de cadarço, passou pelo balcão da recepção e subiu as escadas até o segundo andar, onde foi recebido sem pompas e nem um café, apenas um copo de água, por duas funcionárias da Supervisão de Gestão de Pessoas, que cuida da colocação de novos servidores na rotina da administração.Silvinho não é servidor municipal, mas nos próximos três anos agirá como tal, conforme impõe acordo que ele fez com a Justiça Federal para livrar-se do processo do mensalão - suposto esquema de compra de votos que aliados do Palácio do Planalto teriam montado no Congresso.A Procuradoria da República imputou a Silvinho importante papel na "organização criminosa" da qual teriam participado José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. O Supremo Tribunal Federal abriu ação penal contra o ex-secretário por formação de quadrilha, crime punido com pena mínima não superior a 1 ano de prisão - condição que abriu o caminho para o pacto judicial.Ele terá de cumprir 750 horas de trabalhos para a comunidade. A Subprefeitura do Butantã é reduto de tucanos e filiados do DEM, mas ele a escolheu, segundo disse, porque fica próxima de sua casa, em Carapicuíba, e da lanchonete da família, a Tia Leila, em Osasco, onde trabalha de cozinheiro pela manhã.Ontem, antes de se dirigir ao Peri-Peri, preparou para a freguesia da Tia Leila prato especial - lula recheada com alho-poró e camarão. "É gostoso, muito bom", garante.Com essa intenção, a de virar cozinheiro voluntário da municipalidade, ele foi à repartição. Na breve reunião, que foi até 14h56, ponderou: "Queria desenvolver trabalho de cozinha e com horta comunitária, são minhas capacidades, minhas habilidades. Meu trabalho é mais manual".Sociólogo formado pela PUC, Silvinho diz que sua mão está estendida para crianças carentes e idosos desamparados. "É com eles que eu pretendo trabalhar."TAPA-BURACOMas as opções que sugeriu não mereceram guarida. Ele deverá exercer outra atividade, de caráter burocrático, à média de 3 horas por dia de labuta. Às segundas e terças-feiras dará expediente na praça de atendimento, porta de entrada da subprefeitura. O cenário que o aguarda são 400 contribuintes que todo dia batem à porta em busca de informações diversas.Nos outros dias vai integrar a equipe da zeladoria, que cuida dos serviços de tapa-buraco e limpeza de bocas-de-lobo em toda a área sob tutela da subprefeitura - meio milhão de habitantes e 82 favelas espalhadas por cinco distritos (Butantã, Morumbi, Vila Sônia, Rio Pequeno e trecho da Raposo Tavares). Sua missão: levantamento das necessidades dos bairros.Maurício Pinterich, o subprefeito, é tucano de carteirinha. Foi prefeito de Piraju (SP) em duas ocasiões, entre 1997 e 2004, mas as diferenças políticas não o farão expor o reforço a constrangimentos. "Ele vai receber tratamento respeitoso como qualquer outro nessa situação. Não farei nenhuma deferência pública a ele e não permitirei nenhuma discriminação."À saída, Silvinho falou sobre o PT, do qual se desvinculou. "São muitos os erros que eles cometeram, o principal foi ter entrado na vala comum dos crimes eleitorais." Não tem mais contato com Dirceu e Delúbio, diz. "Não falo mais com eles nem por telefone, nem por telepatia, nem por carta, nem por e-mail. Saí desse mundo da política, não vejo mais nenhum prazer."Reafirmou como o executivo de uma empreiteira o presenteou com a Land Rover de R$ 73,5 mil: "Um dia, tomando uísque, comentei com ele o meu sonho de ter um jipão para chegar até minha casa de Ilhabela. Foi um grande erro".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.