MARTIN BENTSEN
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Sheri Berman: 'Democracia requer que políticos vejam opositores como legítimos'

Professora de Columbia critica a polarização e diz que o regime democrático exige ‘acordo e negociação’

Entrevista com

Sheri Berman, professora da Universidade Columbia (EUA)

Paulo Beraldo e Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 05h00

No Brasil, a imensa maioria (83%) se diz insatisfeita com o funcionamento da democracia, segundo o Pew Research Center, e a polarização no País é recorde: 32% dos brasileiros acreditam que não vale a pena tentar conversar com pessoas que tenham visões políticas diferentes das suas, de acordo com o Ipsos.

Para a professora da Universidade Columbia (EUA) Sheri Berman, essa insatisfação "reflete um sentimento de que políticos, partidos e governos não estão 'ouvindo' as pessoas nem resolvendo seus problemas". "Democracia requer acordo e negociação. Também exige que os cidadãos e os políticos vejam a oposição como legítima", afirmou Sheri ao Estado.

Uma pesquisa do Pew Research Center feita com mais de 30 mil pessoas de 27 países entre maio e agosto de 2018 mostra que 51% dos entrevistados se dizem insatisfeitos com o funcionamento da democracia em seu país. No Brasil, a taxa é de 83%. O que explica esses números?

Há uma diferença entre estar insatisfeito com o funcionamento da democracia e estar insatisfeito com a democracia. Estar insatisfeito com o funcionamento da democracia não é fatal, mas altos níveis de insatisfação com a democracia em geral podem ser. A insatisfação com o funcionamento da democracia reflete um sentimento de que políticos, partidos e governos não estão “ouvindo” as pessoas nem resolvendo seus problemas. Em grande medida, este sentido não é infundado. No Brasil, os cidadãos têm todo o direito de estar com raiva com corrupção, crime, pobreza e muito mais. E os cidadãos nos EUA e na Europa também têm muitas razões para se frustrarem. Mas reconhecer que políticos, partidos e governos não fizeram um bom trabalho não é desculpa para apoiar aqueles que ameaçam a própria existência da democracia.

Outra pesquisa, realizada pelo Ipsos, identificou que a polarização no Brasil atingiu um nível de intolerância superior à média internacional de 27 países. De acordo com o instituto, 32% dos brasileiros acreditam que não vale a pena conversar com pessoas que tenham diferentes visões políticas. Como isso pode afetar a democracia brasileira?

Democracia requer acordo e negociação. Também exige que os cidadãos e os políticos vejam a oposição como “legítima”. Isto é, embora possam discordar deles, eles aceitam seu direito de participar da política e de disputar eleições. Isso também significa que eles aceitam o resultado dessas eleições. Mesmo que seus opositores vençam, eles devem estar dispostos a aderir às “regras do jogo”, que é participar nas próximas eleições. A polarização complica enormemente todas essas coisas. Se você acredita que seus opositores não estão errados ou têm posições políticas diferentes, mas, sim, são maus, uma ameaça ou não são “legítimos”, isso aumenta a disposição de recorrer a medidas extremas ou não mais “jogar pelas regras do jogo”.

O presidente Jair Bolsonaro pode ser considerado populista?

A maioria dos observadores o vê como populista por causa do discurso de divisão, a mentalidade do nós contra eles, a demonização dos oponentes, o iliberalismo, o antipluralismo e sua aparente falta de respeito pelas normas e instituições democráticas. Ele também deixou clara sua admiração pelo período da ditadura no Brasil. Até agora, Bolsonaro parece ter gasto mais tempo aprofundando as divisões sociais e criticando seus oponentes do que resolvendo os problemas do Brasil.

O discurso dos populistas pode aumentar o sentimento de insatisfação sobre a democracia?

Os populistas prosperam e manipulam o medo e o pessimismo. Eles tomam o que muitas vezes são mágoas reais e as transformam em teorias da conspiração, divisões sociais e bodes expiatórios. Suas soluções são baseadas em medo ou nostalgia. Mas lutar contra o populismo exige que os democratas façam mais do que criticá-lo: eles devem ser capazes de mostrar que têm melhores soluções para os problemas.

O surgimento do populismo e a radicalização do discurso levam a uma desintegração dos partidos centrais, que, em geral, tinham a capacidade de formar grandes coalizões. Como vê o papel dos partidos de centro?

Um dos pré-requisitos para a ascensão do populismo foi o colapso ou enfraquecimento dos partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda em muitos países. Isso é muito claro em grande parte da Europa, mais notavelmente na França e na Itália, onde os atuais líderes/governos chegaram ao poder logo após o “colapso” do sistema tradicional. Mas, mesmo em outros países, os partidos de centro-esquerda e centro-direita diminuíram drasticamente. O enfraquecimento da esquerda e da direita tradicionais abriu espaço para novos partidos, incluindo os populistas, e complicou enormemente a formação de governos. No Brasil, a frustração com o PT representa uma variação desse tema.

Qual o papel dos partidos de esquerda hoje? Em um contexto de crise econômica global, a senhora acredita que partidos de esquerda estão atualmente se concentrando mais em questões de identidade do que em questões econômicas?

Em muitos lugares sim, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Abordar as queixas e erros históricos cometidos às minorias é crucial, assim como promover a igualdade para todos os cidadãos. Mas também é importante para a esquerda e para a democracia em geral que todos os cidadãos tenham o sentimento de pertencer a uma comunidade nacional - a sensação de “nós”, como alguns dizem.  Além de lutar pelos direitos de grupos específicos, a esquerda e os democratas não devem esquecer que a solidariedade social e a unidade nacional são preciosas, frágeis e absolutamente necessárias para manter a estabilidade política e fazer as democracias funcionarem bem.

O que poderia ser feito para que as pessoas acreditassem novamente que a democracia é o melhor sistema político?

Essa é uma questão difícil, pois cada país é diferente. Em geral, cabe aos líderes e governos democráticos ser receptivos aos cidadãos – escutá-los e tentar resolver seus problemas. As democracias não “acertarão” todas as vezes – nem todas as políticas funcionam –, mas, no mínimo, a democracia deve encorajar e permitir que os cidadãos participem. Se os cidadãos escolherem seus líderes e governos e essas escolhas não forem impedidas pela corrupção e pela manipulação, sempre haverá a possibilidade de mudar as políticas e melhorar as coisas.

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