Shell e Cetesb admitem falha em Paulínia

A representante da Shell admitiu ontem em seu depoimento à Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Assembléia Legislativa que, desde 1993, a empresa sabia da contaminação da área de sua fábrica de agrotóxicos em Paulínia com organoclorados de tipo drins e metais pesados, substâncias altamente tóxicas. Apesar de informada do problema desde 1994, quando a Shell se autodenunciou, a Cetesb não solicitou que fosse analisada a água dos poços das chácaras vizinhas, a 15 metros da fábrica. Só no ano passado, foram feitas as primeiras análises. A direção da Cetesb admite a falha. "Talvez tenhamos errado. Não tínhamos motivo para acreditar que a contaminação se tivesse espalhado", disse Orlando Cassetari, diretor de Controle de Poluição da Cetesb, ressaltando que a empresa apenas assessorava o Ministério Público, que apurava o caso da contaminação no bairro Recanto dos Pássaros. O secretário de Meio Ambiente de Paulínia, Henrique Padovani, não entende como a Cetesb não viu riscos, porque a fábrica foi construída numa área sujeita a inundações sazonais, a 150 metros do Rio Atibaia. "É área de preservação permanente, um terreno permeável, onde jamais deveria ter sido instalada uma indústria desse tipo." Segundo Cassetari, entre 94 e 99, Cetesb, Shell e MP dedicaram-se a estudar as medidas adequadas para a situação. Em 96, a Shell construiu uma barreira hidráulica contra poluentes voláteis. No ano passado, por exigência dos moradores, analisou a água que eles bebiam. Desde então, a empresa fornece água aos moradores e compra sua produção agrícola. "A contaminação é pequena, segundo projeções matemáticas; se os moradores não consumirem nem a água nem os produtos da terra, podem continuar lá sem riscos", afirmou Maria Lúcia Pinheiro, vice-presidente de Assuntos Químicos da Shell para a América do Sul, em seu depoimento. O cálculo, explicou ela, prevê banhos de 20 minutos e que as crianças não permaneçam mais de 6 horas diárias em contato com a terra. O MP, porém, quer mais do que cálculos teóricos. Desde agosto, solicitou a realização de exames de sangue dos moradores. A Shell comprometeu-se a fazê-los. Como ainda não os fez, a prefeitura de Paulínia decidiu bancar os exames. Anteontem, a Cetesb determinou que a Shell remova cerca de 1.200 toneladas do solo e subsolo das regiões contaminadas, medida considerada inadequada tanto pela Shell como pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Para a empresa, pode causar mais problemas ambientais.Vítimas - Há cinco dias, Amanda, de 2 anos e 7 meses, começou a apresentar sintomas de distúrbios neurológicos. Três semanas atrás, seu irmão, Jonathan, de 11 meses, teve convulsão. Eles são as mais recentes vítimas da contaminação por organoclorados encontrados no lençol freático no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia. Na última década, em um bairro de 150 habitantes, duas crianças tiveram leucopenia, doença dos glóbulos vermelhos associada a agrotóxicos, quatro moradores morreram de câncer e outro convive com a doença. A maioria tem problemas respiratórios, associados à queima dos resíduos da fábrica.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.